domingo, 22 de janeiro de 2012

Aqui não, coração!



A última data possível a me atingir em 2011 era a virada do ano. A fatídica última semana de dezembro tornou as coisas mais difíceis, mas aprendi que os dias ruins fazem os bons ficarem ainda melhores. Sem contar que, a essa altura do campeonato, otimismo pra mim era sanidade. Ou eu acreditava que dias melhores viriam e esperava pacientemente por eles, ou desistia de tudo e me entregava ao desespero. É claro que escolhi a primeira opção.

Entendi que eu precisava descobrir o que queria e depois deveria aprender a pedir. Concentrei-me nisso e descobri que queria a melhor virada do ano da minha vida, contrariando as estatísticas. Então decidi que não faria nada pelas metades, porque não queria ser meio feliz. Daí começou a saga para superar a última noite de 31 de dezembro, que foi a pior da minha história, com toda certeza. Engraçado... Parece cômico e até místico, mas é como se eu estivesse sentindo que o ano de 2011 iria dilacerar tudo em mim.

Minha família foi pra Acreúna e, após pensar muito a respeito, decidi que ficar em Rio Verde, na minha igreja, seria a melhor alternativa. Último dia do ano, sábado... Como de costume, saí do trabalho às 08 da manhã e voltei a dormir (ou tentei fazê-lo), porque um vizinho logo me despertou. Acordei ao som de “Jerusalém, eu andarei por ruas de ouro, eu caminharei junto aos anjos de Deus”. Tudo bem que a música é linda e bastante sugestiva para meu pedido de ano novo, mas quem me conhece sabe o quanto fico mal humorada quando não posso dormir. Lutei contra o som ensurdecedor até quando pude, daí me dei por vencida e fui assistir TV (coisa que raramente faço, a não ser no sábado, quando gosto de ver os calouros do Raul Gil; além, claro, dos meus telejornais favoritos).

“Tudo bem, Deus... Quero ter uma virada do ano feliz e acho que dormir seria um ótimo começo, mas se o Senhor (ou o vizinho) não quer... O que temos pra hoje”? Foi quando me deparei com o Pastor Samuel (Assembléia de Deus do Braz), em uma ministração simples e objetiva que me fez entender o motivo por não conseguir tirar meu sono da beleza. Eu precisava ouvir aquilo. Precisava muito.

O Pastor afirmou que daria 12 conselhos para 2012, esclarecendo que não se tratava de um manual da felicidade nem de autoajuda. Eram conselhos, literalmente, que poderiam ser seguidos, ou não. Eu disse SIM já ao primeiro conselho e decidi que este regeria minha vida no ano que estava prestes a se iniciar... “Guarde o seu coração”, o Pastor disse repetidas vezes. “Não aceite que ele seja depósito de tristeza”. Nem preciso dizer o quanto chorei. A Palavra do Senhor nos faz um alerta importante: “Sobre tudo o que deve guardar, guarde o seu coração, porque dele procede a fonte da vida”. Aprendi uma técnica incrível, que mais tarde, naquele mesmo dia, seria testada a ferro e fogo. “Quando algo ruim lhe suceder e a tristeza procurar uma brecha pra se instalar, bata forte no peito e diga: ‘aqui não, coração, você está guardado’”!

Aqui estão os conselhos, a começar do primeiro, sobre o coração: 



1º: Guarde o seu coração.

2º: Afaste de sua boca as palavras perversas, porque há poder na palavra.

3º: Seja rápido para perdoar e reconhecer suas falhas, mas demorado para ficar ofendido.

4º: Aproveite as experiências de 2011. Reflita e não erre nas mesmas coisas em 2012.

5º: Olhe para frente. Pra quê carregar lembranças ruins? O segredo dos que triunfam é sempre recomeçar.

6º: Não seja invejoso. Aprenda a dormir e ter seus sonhos.

7º: Aprecie a vida, porque ela é linda.

8º: Pense em coisas boas.

9º: Valorize seus relacionamentos.

10º: Aceite a vontade de Deus. Nós enxergamos até a curva, e Ele, depois da estrada.

11º: Confie em Deus acima de tudo.

12º: Aceite os desafios de Deus.



Sobre as experiências de 2011, em particular, uma das maiores lições que tive foi quanto à amizade. Aprendi, da forma mais dolorosa e traumática possível, que amor e perdão são incondicionais, mas que a continuidade do relacionamento, definitivamente, não é. Pelo contrário... Existem muitas condições, muitos limites a serem respeitados. Eu só desejo ter sempre a quem amar e, que quando estiver bem cansada, exista amor para recomeçar. Nada além disso. Nada de cobrança, nada de acusação.

Pois bem. Depois de ouvir Papai do céu falar comigo através do Pastor Samuel, o Ministério Voz da Verdade colaborou para a construção de um dia inesquecível. “Eis que farei uma coisa nova... Caminho no deserto”. Esses trechos do versículo citado se eternizaram no meu coração. Eu precisava crer nisso. Havia esperança e promessa de um novo tempo, claro que havia. Eu profetizei sobre minha vida, dizendo que 2012 seria um ano de novidades, não aquelas previstas, como minha formatura, mas surpresas de fato. Eu creio!

Lá estava eu, almoçando batata e coca-cola (convenhamos que não é legal cozinhar pra uma só pessoa, ainda mais se considerarmos o péssimo gosto da minha comida). Como de costume, aproveitei o momento de solidão pra ouvir música e limpar minha casa, enquanto fazia uma espécie de faxina no coração, simultaneamente.

Fui fazer as unhas e, na volta pra casa, tive a oportunidade de colocar em prática o primeiro conselho que recebi pela manhã (sobre guardar o coração). Deparei-me com um rapaz bêbado, todo sujo, que falava pra si mesmo algo que de início não consegui entender. Eu e minhas histórias com bêbados, meu Deus. Ao me aproximar, compreendi as palavras que saíam desordenadas: “Eu prometo que não vou acreditar que meu pai fez isso comigo”. Pensei se tratar de uma briga familiar, mas não. “Logo hoje, logo no dia do feriado, que é um dia feliz”. Comecei a me preocupar. “Por que ele tinha que fazer isso? Logo de moto? Por que não foi de caminhão, pra bater e acabar com tudo de uma vez. De moto não, cara, de moto não”. Eu fiquei sem ar.

Por que meu pai fez isso comigo? De moto não, cara, de moto não. Inconscientemente, comecei a chorar na rua e pensei que a chance de ter a melhor virada do ano da minha vida acabava ali, mas Deus tem seus caminhos... Ao colocar a chave na porta de casa, eu despertei com um choque. “Aqui não, coração, você está guardado”. Bati no peito repetidas vezes, com a força que encontrei, e disse que não iria permitir que a tristeza se infiltrasse no meu dia, no meu ano, na minha vida. Juro que funcionou. Fui tomada por uma alegria impressionante enquanto falava com Deus por alguns minutos antes de ir pra igreja. Aproveitei para renovar propósitos, fazer outros, ministrar toda sorte de bênçãos sobre minha família, minha casa, tudo o que é nosso. Foi lindo.

O culto teve sua especial participação no projeto de Deus para o último dia do pior ano da minha vida. Nenhuma palavra proferida foi de particular revelação, mas era como se fosse. Uma música, especialmente, embalou a minha retrospectiva de 2011. Na verdade, fiz rapidamente um apanhado de alguns anos anteriores. Ao som de “Palavras”, me lembrei de uma época muito feliz, em Acreúna. Me veio à caixa das lembranças a Lucielle cantando na igreja, a gente saindo depois do culto e depois voltando pra casa, podendo dormir com a certeza de que minha família estava completa. “Ainda que pra Te servir, Jesus, eu tenha que chorar... Te servirei, porque comigo estarás. Sofrer Contigo é bem melhor do que errar”. A última Santa Ceia de 2011 e primeira de 2012 anunciou que o ano novo seria melhor, porque eu tinha o que pode haver de mais precioso nessa vida: comunhão com Deus.

Joelho no chão pra esperar 2012. Os primeiros instantes do ano foram inesquecíveis. Lá estava eu, abraçada a uma garota até então desconhecida, que, naquela noite memorável, em meio às lágrimas, decidiu entregar sua vida a Jesus. Mais tarde descobri que ela era ouvinte assídua do Morada Gospel, o que me fez sentir por ela particular amor e desejo de cuidado. De repente percebi que meu pedido havia sido atendido. Foi a melhor virada do ano da minha vida.

Depois do culto, começou a nossa saga em busca de um lugar pra comer na cidade deserta. Encontramos a Subway aberta... Melhor impossível! Dormi na casa da Claudinha e, o dia seguinte (ou mesmo dia, considerando a hora em que fomos dormir), primeiro do ano, foi marcado por um diálogo saudável e libertador, que me trouxe cura e alívio para a alma. Como é bom amar essa minha amiga! Pra terminar muito bem o que começou de igual modo, o Morada Gospel especial de ano novo marcou minha vida, com toda certeza.

E por falar em marca... “Não entendo o Teu modo de agir quando trazes à minha memória dores, marcas, histórias que estão bem vivas em mim”. Eis aqui algumas delas:



Em 2011:

Perdi meu pai, e com ele a intensidade do meu sorriso, além de seis quilos.

Ganhei o Otávio, o pequeno grande homem que mudou minha perspectiva sobre a vida.

Aprendi que não devo confiar em pessoas que se autoafirmam, se justificam o tempo todo e são invasivas demais.

Mudei de casa e o corte do cabelo (duas vezes).

Beijei o, o, o... Esquece.

Esqueci o aniversário do meu melhor amigo e senti uma terrível culpa por isso.

Experimentei chopp de vinho e gostei (não, eu não sou alcoólatra, nem abandonei a fé).

Terminei meu TCC.

Chorei pela ausência do meu pai, por ver minha irmã se esforçando pra demonstrar força e pela idéia de não conseguir fazer minha mãe feliz.

Fui para o Guarujá com minha família.

Voltei de Gramado apaixonada e com vontade de conhecer a Europa.

Superei o pior ano da minha vida, mas, infelizmente, as lembranças ruins não foram embora com ele.


Em 2012 quero:

Perder o medo de tentar.

Ganhar meus seis quilos de volta, uma Dudalina, um vidrão de palmito, um ar-condicionado e um tablet. Só.

Aprender a reconhecer o “amor sequestrador” há quilômetros de distância e fugir dele, definitivamente.

Mudar para nossa casa nova, aquela que vamos comprar, pela fé.

Beijar o homem da minha vida.

Esquecer o mal que me fizeram em 2011. Aliás, quero esquecer 80% desse ano lamentável.

Experimentar dizer “não” mais vezes.

Terminar meu curso e me tornar uma legítima jornaleira.

Chorar de felicidade no dia da minha formatura.

Ir para a França, Inglaterra e Holanda.

Voltar do exterior cheia de histórias incríveis pra contar.

Superar os traumas que malfeitores semearam em meu coração no ano que passou.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Eu digo NÃO ao amor sequestrador!



A última semana de dezembro foi a pior do ano em termos de dor física. Troquei os dias pelas noites, literalmente, e minha mãe sofreu tanto quanto eu, porque passou noites em claro ao meu lado, tentando aliviar minha dor com suas massagens nada profissionais, porém apaziguadoras. Acontece que sofro de um mal chamado espondilose cervival, um tipo de osteoartrite que causa dores intensas nos ombros, braços e pescoço.
Nunca ninguém me compreendeu tão bem quanto Melanie Thernstrom, no livro “As crônicas da dor – tratamentos, mitos, mistérios, testemunhos e a ciência do sofrimento”. Faço das palavras da autora as minhas: “A dor começou a impor o seu domínio sobre o meu mundo. Não era como uma intrusa violenta que entra à força, quebra tudo e vai embora. Era mais como uma parceira doméstica azeda, íntima e feia; uma presença ameaçadora, suja, perturbadora, mas que se recusava a ir embora. Eu não gostava de acordar e sentir as suas mãos grudentas em mim; não gostava que ficasse pela cozinha, me fazendo derrubar pratos pesados; não gostava que interrompesse meus telefonemas, especialmente quando uma amiga confidenciava uma tristeza que eu me preocupava em escutar. Eu me preocupava, mas não como antes, porque agora parte de mim só se preocupava com a dor. ‘O meu pescoço dói’, era o que me segurava para não dizer, queixosa, quando as minhas amigas discutiam casamentos e abortos. ‘O meu braço dói’”.
Além do incômodo da dor, cobranças, acusações e o tal do “amor sequestrador” fizeram desses últimos dias do ano os piores possíveis. A guerra que acontecia dentro de mim não me deixava dormir. Certa de que o coração é o árbitro das decisões, me calei o máximo que pude pra poder ouvi-lo. E ele me disse o que fazer...
Antes de qualquer coisa, eu sabia que tinha o poder de entrar na vida de alguém e dar a essa pessoa a coragem de ser. Isso significa que poderia estender a mão da reconciliação a alguém que afastei, fazer uma ligação para alguém com quem tive um conflito ou para um familiar com quem não falava há muito tempo. Dessa forma, a cura passa a ser a oportunidade de transmitir a outro ser humano o que recebi do Senhor Jesus; a saber, Sua aceitação incondicional de mim mesma como sou, não como deveria ser.
Ele me ama, seja em estado de graça, seja de desgraça, quer eu viva de acordo com as expectativas elevadas de Seu Evangelho, quer não. Ele vem a mim onde vivo e ama-me como sou. Sempre que transmiti essa mesma realidade à outra pessoa, o resultado foi a cura interior dessa pessoa por meio do toque da minha afirmação. Afirmar uma pessoa é enxergar o bem que há nela, o qual ela mesma não consegue enxergar, e repetir isso apesar das aparências em contrário. Quando uma pessoa é despertada para aquilo que ela é e não para aquilo deixou de ser, o resultado mais frequente é a cura do coração. Como bem disse Brennan Manning, a pergunta não é se podemos curar, e sim, se deixaremos que o poder curador de Jesus flua por intermédio de nós para alcançarmos e tocarmos outras pessoas, de modo que elas possam resistir, lutar e sonhar, correndo para onde nem os corajosos ousam ir.
Eu me autoafirmo como “médica ferida”. Portanto, é meu dever oferecer a cura. Mas até quando o já banalizado “amor cristão” me obriga a agir além das minhas possibilidades? Até que ponto é saudável e biblicamente correto eu me anular em benefício do outro? Aprendi, em meio a esse conflito, que o perdão e o amor são incondicionais, mas a continuidade de um relacionamento, definitivamente, não. O amor que envolve compromisso e amizade eu posso escolher a quem dar, sem culpa e sem medo.
Para reafirmar o que o próprio Deus já havia ministrado ao meu coração, uma linda amiga, usada por Ele, fez chegar até mim um texto que mudou minha vida. Trata-se do posicionamento de Caio Fábio a respeito desse “amor” exigente e acusador.
Segue o texto:



Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas?

Certas frases soam tão bem que parecem até ser verdade. Uma delas é essa frase de “Miss Universo” recitada do livro “O Pequeno Príncipe”.
Nunca vi uma receita de doença ser escrita com tanta beleza e aparência de verdade! De fato, estou escrevendo isto apenas porque hoje recebi alguns e-mails de gente me dizendo basicamente o seguinte: “Puxa, mandei uma carta pra você fazendo perguntas e abrindo o coração, e você nunca me responde. Continuo amando você apesar disso. Mas quero que você saiba que me cativou. Por isso, quero resposta. Me responda, porque eu amo você”.
Todo mundo gosta de ser amado, mas eu já tive mil vidas de amor por mim que quase me mataram. Sim, pode-se ser vitimado e morto por esse tipo de amor “Pequeno Príncipe”.
Só Deus sabe as centenas de viagens que não podia fazer, mas fiz. Tudo por causa do sequestro do “amor”.  Só Deus sabe quanta coisa minha, pessoal, essencial, e de profunda significação, deixei de fazer, apenas porque estava sequestrado por esse tipo de amor que ama convenientemente, transferindo responsabilidades para você. Não, meus amigos! Não estou mais sequestrado pelo amor dos que barganham!
Esse tal amor é barganha infantil e profundamente sequestradora. E tem gente que só ama assim: em troca de alguma coisa — preferencialmente em troca de você, de sua alma. Esse amor, hoje em dia, eu o discirno de bem longe. Não me diz mais nada. Enfartei dele! Esse amor é amor de vampiro!
Tal amor é doença e gera co-dependência. Você fica sequestrado pelo outro, sendo que o outro obriga você a ser dele sem que você possa ser, posto que nunca pediu para ser, muito menos para ser daquele modo e com aquelas cobranças. É como ir andando na rua, ser achado bonito, e, em razão disso, ter que ceder a todas as cantadas. Afinal, você cativou pessoas, e, supostamente, não se pode deixar de aceitar responsabilidades por ter gerado algo tão divino nos outros.
Tudo bobagem! Narcisismo bondoso, porém, ainda, narcisismo! Eu, todavia, já fui vítima disso, e sei que quando você se arrebenta contra a penha da existência, os seus “amantes cativados” acusam você de os haver traído.
Ah, quantos amigos desses eu tive! E onde andam? Cobravam-me presença, atenção, responsabilidades, se diziam irremediavelmente meus discípulos, culpavam-me de os haver convertido e de os haver apresentado um Evangelho tão belo, de tal modo que ou eu os atendia ou tinha que viver com a acusação desses amantes cativados. Fiz tudo para agradar a milhares e milhões de amantes fraternos!
 “A minha vida, ninguém a tira de mim; eu espontaneamente a dou”... — ensinou-me, na prática, o Senhor. Assim, meus amigos, escaldado e livre, esse gato já não tem donos terrenos que pelo “amor de vampiro” o possam impressionar. Antes, eles tiravam de mim. Hoje, meus queridos, eu dou!
Faço só o que posso, e não estou num concurso de amor fraterno. Podem amar a quem desejarem. Fico feliz quando vejo as pessoas amando, não sinto ciúmes de ninguém que seja mais amado do que eu.
No entanto, saibam todos: o Bom Pastor, que conhece todas as ovelhas e que pode cuidar de todas: só há um: JESUS! Ele é o Único Pastor porque somente Ele pode cuidar de todas as ovelhas. E mais: somente Ele pôde dar a própria vida e depois reavê-la. Esse mandato, todavia, eu não recebi de meu Pai. Eu — meu Deus! — mal dou conta de meu dia!
Assim, amigos, me escrevam. Deus sabe como faço tudo isto aqui com todo amor. No entanto, saibam: eu não estou sequestrado pelas afirmações do amor de ninguém por mim. Sou responsável por tudo aquilo que eu puder ser, mas não sirvo às neuroses da falsa bondade. Eu me amo o suficiente para não me deixar mais sequestrar pelo amor barganhante de ninguém.
E mais: minhas prioridades, essas eu decido. Nunca mais pretendo deixar que ameaças de amizades forcem o curso de meu caminho. Afinal, meus amigos, eu também amo, e, também, escolho dar amor a quem quero — pelo menos esse amor que envolve amizade e compromisso. E como sou apenas um, posso apenas aquilo que um único um pode. Quem puder mais do que eu, não me cobre; por favor, me ajude! (Caio Fábio).

Feliz aniversário, Jesus!

Maravilhada com o “espírito natalino” desde sempre, eu nunca havia percebido que a história se repete todos os anos. As pessoas se tornam potencialmente mais humanas, doando mantimentos, brinquedos e tempo para os menos favorecidos. O mercantilismo barato (caro) que acompanha a época em questão cria no inconsciente dos consumidores enlouquecidos a idéia de que presente e Natal não podem andar separadamente. O super aquecimento do mercado faz com que as ruas comerciais da cidade fiquem abarrotadas de formigas encarrilhando caixas coloridas. São as mesmas músicas, mesmas emoções, mesmas palavras.
Os enfeites coloridos e as luzes se espalham por todos os lados. Onde é possível, pendura-se pisca-pisca, lâmpadas e cordões reluzentes, para dar um brilho a mais ao Natal. A caprichada decoração transforma ruas escuras em cenários deslumbrantes. Mas depois de passado o mês de dezembro, as luzes são apagadas e guardadas para o próximo ano, o que significa que toda aquela luminosidade era temporária, incapaz de fixar residência em algum lugar.
O meu Natal de 2011 precisava de mais do que pisca-piscas ocasionais. Eu precisava de uma luz verdadeira e eterna, que me ajudasse a ultrapassar a escuridão que me conduzia à tristeza. Então me lembrei do que Jesus disse de Si mesmo: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, pelo contrário, terá a luz da vida”. Eu tinha (tenho) Jesus, por isso minha luz não ia se apagar depois da festa. Eu reconheci, em meio às comemorações, a voz do anjo que declara que o Seu nome seria Jesus porque “Ele salvará o Seu povo dos seus pecados”. Sabe onde li isso? Na minha Bíblia linda, que ganhei do meu pai justamente no Natal, mas de 2010. Foi o melhor presente que recebi, sem demagogia. Só eu sei o quanto foi significativo ganhar dele um abraço de “feliz Natal” acompanhado pela Palavra de Deus transliterada em um livro. Na ocasião, dei a ele um vinho, que era uma de suas paixões. “Você me ensinando o caminho e eu te desvirtuando com esse presente”! Ele riu.
Lembro-me do último Natal antes da tragédia... Na verdade, não passamos juntos. Essa lembrança já me causou dor, mas aprendi que não posso ser tão dura comigo. Desde que a mãe dele faleceu, em 2003, muitas mudanças aconteceram. Datas assim tão familiares, como Natal e dia das mães, já não tinham o mesmo significado. Ele se escondia, na impossibilidade de expressar a dor que sentia pela ausência de sua diva. Mesmo com a nossa insistência para que ele se juntasse à família na noite de Natal, a tristeza se unia à teimosia e ele permanecia irredutível, sozinho em casa. Foi assim no ano passado. Hoje me pergunto por que eu, minha mãe e minha irmã não abrimos mão da festa da família e ficamos ali com ele. Acho que essa pergunta é irracional demais. Se a história fosse outra, se fosse outra pessoa da minha família que tivesse partido pra eternidade e se eu tivesse perdido a chance de passarmos o último Natal juntas, eu me perguntaria por que fiquei em casa com meu pai e não fui à festa. Então, decidi não me prender ao que poderia ter feito, e sim ao que fiz. Eu sei o que fiz. Deus sabe o que fiz.
O problema maior é o já banalizado pedido de Natal. No ano passado, pedi para que o meu pai estivesse lá conosco no próximo ano, além de pedir para que o momento que estávamos enfrentando, até então o mais doloroso de nossas vidas, fosse superado sem maiores transtornos. Sim, a tempestade em questão passou; porém, meu pai mais uma vez não foi à festa de Natal. A diferença é que não o encontramos ao voltar pra casa.
Caiu por terra o discurso de “enfrentamos dificuldades esse ano, mas o importante é que estamos todos vivos e com saúde”. Foi o Natal mais triste da minha vida e, ao olhar pra minha família reunida ali, os pais com os filhos e até netos, me perguntei várias vezes o porquê de justamente a minha casa ter ficado menor. Outra pergunta irracional, claro. A hora da foto foi uma tortura só... Enquanto que alguns dos meus tios se apertavam em um abraço coletivo com o cônjuge e os filhos, a fim de todos serem alcançados pela lente da câmera, a nossa foto foi quase deprimente... Eu, minha mãe, minha irmã e uma ausência enorme do lado. Ainda bem que a Naná se juntou a nós e tornou o momento menos trágico.
Mas espera um instante! A despeito de como eu me sentia, havia um motivo para estar ali, e olha que não estou me referindo à revelação do amigo secreto nem às guloseimas de Natal. Claro! Era o aniversário do meu amigo Jesus! Como não pensei nisso antes!? Ele deveria estar, no mínimo, triste por eu tê-Lo ignorado de forma tamanha. Acontece que, infelizmente, o ser humano tem a tendência de dar ênfase ao que perdeu, em detrimento do que possui. E eu tinha/ tenho muito: o Rei dos reis me chama pelo nome, conhece minhas preferências, virtudes e defeitos.
Tudo bem que Jesus não nasceu em dezembro. Nem poderia, teologicamente falando. Mas o cerne da questão é que Ele nasceu, e o fez por mim, em particular. É claro que tal demonstração altruísta e abnegada de amor merece comemoração. Cantei “parabéns” bem baixinho pro aniversariante e entreguei o presente que  havia levado comigo. Na hora do “com quem será que Jesus vai casar” não restava dúvida... “Vai depender, vai depender, vai depender se Sua noiva (da qual eu faço parte) vai querer”. Sim, Jesus, eu aceito. Está tudo preparado para o grande dia. Te espero ansiosa, mas não a ponto de perder a esperança; nem tão esperançosa a ponto de perder a ansiedade.





Mãe e irmãs. "Diga ainda que a gente conseguiu sobreviver à dor e Deus mandou a chuva".

Aba, pertenço a Ti

ABA significa literalmente “pai, papai, querido pai”. Dessa forma, podemos nos dirigir ao Deus infinito, transcendente e todo-poderoso com a intimidade, a familiaridade e a confiança inabalável que uma criança experimenta no colo de seu pai. Sou feliz em saber que o amor do meu Aba não depende do meu esforço e não se altera de acordo com o meu desempenho.
Se Charles deFoucauld tivesse a oportunidade de me conhecer, certamente não conseguiria esconder a decepção. Para ele, a única coisa que devemos absolutamente a Deus é nunca ter medo de nada. E eu tenho. Rapidamente, passei do estágio de aversão a sapos, lugares fechados e sangue para o desenfreado pavor com relação à morte, não a minha, mas a de pessoas que amo. Minha vida é antes e depois de 2011. O foco saiu de mim. Nunca mais bato a porta e vou... Tenho medo do momento de voltar a ser só eu.
Como lidar com o medo é o que me diferencia de algumas pessoas que decidem se afogar em sua autocomiseração. Eu não sou vítima. Talvez já tenha sido por muitos e muitos anos, embora não tivesse consciência disso. Enfim... O medo, por mais intenso que pudesse parecer, ainda não conseguiu me paralisar. Eu vou continuar, porque escolhi me orgulhar das minhas fraquezas, já que elas demonstram o poder de Cristo, que é atuante em minha vida.
Eu tive medo do mês de dezembro e tentei menosprezá-lo, mas isso não fez com que ele não chegasse, todo sorridente, cantarolando uma música de Natal (o que prova que os fatos não deixam de existir simplesmente por serem ignorados).  Dia primeiro... Consegui decepcionar duas pessoas que tanto confiam em mim: Deus e eu mesma. Eu errei, o que não é nenhuma novidade. O âmago da questão está no que fiz com o erro. Aprendi com ele, cresci, fui perdoada por Deus e me perdoei. Entendi que o cristianismo não consiste primeiramente no que faço pra Deus... Tudo começa com o que Ele fez por mim. O Reino que Jesus proclamou é bem mais que pessoas que vão à igreja aos domingos, lêem a Bíblia de vez em quando, fazem um retiro espiritual por ano, opõem-se vigorosamente ao aborto, não assistem filmes pornográficos, jamais fazem uso de palavras chulas e se dão bem com todos. Na verdade, o Evangelho é absurdo, e a vida de Jesus é totalmente sem sentido a menos que acreditemos que Ele viveu, morreu e ressurgiu com apenas uma finalidade em mente: mostrar-nos Seu amor. Ele não espera que tenhamos uma moral aperfeiçoada tão somente, mas sim, que sejamos cheios de amor (por ELE, por nós mesmos e pelos outros), que sejamos leais à Palavra, que desejemos chegar ao Seu próprio coração, que sejamos atraídos pela chama que consome, purifica e atribui a tudo ardente paz, alegria, ousadia e amor extraordinário, furioso.
O amor de Cristo ultrapassa o conhecimento. Precisamos abrir mão de nossas percepções humanas, legalistas, tradicionalistas, circuncidadas, empobrecidas de Deus e nos abrir para o Pai de Jesus, que também é nosso. Se o fizermos, a promessa é que seremos cheios da plenitude de Deus. E foi exatamente isso que aconteceu... Lancei-me nos braços de amor do meu Pai. Ele me abraçou, me perdoou (mesmo sem merecer), e me fez viver dias de plenitude verdadeira. Entre os dias 03 e 10 de dezembro, tive a sensação de que nada me faltava. Nunca estive tão bem (espiritualmente), tão íntima de Deus, tão feliz com Ele, por Ele e para Ele. Os problemas continuaram, as circunstâncias negativas eram as mesmas, mas a mudança aconteceu aqui dentro de mim, sem grandes alardes, sem que ninguém percebesse. Eu estava me sentindo realizada, e isso me bastava por ora.
Tudo começou com o Louvor Solidário da Catedral da Família, igreja que sempre fez questão de marcar positivamente minha vida. Durante o culto, a Palavra que ouvi reafirmou o sentimento de perdão que enchia meu peito: Deus me ama e Seu amor é muito grande e incondicional. Lembrei-me de uma verdade imutável: o amor dEle não diminui de acordo com os meus erros, nem aumenta de acordo com os meus acertos. Eu estava livre para adorar, porque a graça de Jesus é maior que todo mal que eu pudesse causar a mim e a outras pessoas. Naquela noite inesquecível, obtive três respostas de Deus, o que me encheu de coragem para enfrentar o que quer que o futuro me reservasse.
E que reserva ele fez! No dia 08, logo pela manhã, um telefonema inesperado. Minha irmã atendeu e, atônita, olhou pra mim e pra minha mãe: “ele quer falar com o meu pai”! Como assim? Como alguém teria a capacidade de ligar pro meu pai depois de quase nove meses de sua partida para a eternidade? São em momentos assim que eu gostaria de voltar a ser criança, só pra não ter que resolver assuntos de gente grande. Minha mãe pediu pra que eu conversasse com o moço no telefone. O assunto não vem ao caso, mas ele queria se certificar de que meu pai havia... Bem, ele pediu o número do atestado de óbito e eu repeti vagarosamente cada algarismo, até que... Uma longa pausa me fez ouvir o som ambiente do outro lado da linha. “Isso é realmente necessário”? Perguntei. É claro que ele não considerou o mal que aquele ato estava me causando. “Preciso desse número, senhora”.
Não sei por que insisto em acreditar que tudo tem um propósito, mas sei que tem. Talvez o tom da minha voz tenha provocado algo bom naquele homem. Talvez o meu dilaceramento tenha o feito refletir sobre seu relacionamento com o pai ou os filhos, se for o caso. Talvez ele os tenha abraçado naquele dia e dito o quanto os ama e teme perdê-los. Talvez.
Não que eu precise me justificar, mas, nesse caso, o farei com prazer. O assunto em questão não era nenhuma dívida. Aliás, desconheço homem mais honesto que meu pai. Na verdade, a inocência e boa fé dele fizeram com que pessoas sem escrúpulos não o respeitassem. Mas deixa pra lá... A lei da semeadura nunca falha... É bíblico. Aqui se planta, aqui se colhe.
A noite do dia 08 veio como um presente pro meu coração tão triste... Assistir a ministração do Thalles Roberto foi a realização de um sonho, ainda mais na companhia de amados amigos. Mais uma vez o Senhor ministrou na minha vida a palavra de dias atrás: “você é minha filha amada e perdoada”. O dia, que começou tão mal, terminou ao som de Jesus Culture: “Oh, dia feliz, dia feliz... Você lavou meu pecado. Oh, dia feliz, dia feliz... Eu nunca serei o mesmo, pra sempre estou mudado”. Nem o pneu furado na volta de Quirinópolis foi capaz de tirar o sorriso que se misturava às lagrimas de alegria... Foi o meu dia feliz, tão feliz.
De repente, já era dia 16, e eu estava ali, com minha saudade e meu amor inabaláveis, além da presença do meu pequeno príncipe, Otávio, dissipando o mal que rondava meu coração. Nãos sei como isso é possível, juro que não sei, mas não me lembro de detalhes sobre esse dia. Sei que a Paulinha me mandou uma mensagem citando 1 Pedro 5:7 – “Lançando sobre Ele TODA vossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de vós” (grifo dela), que serviu para que eu me entregasse ao meu Pai com amor e confiança e sentisse Seu abraço mais uma vez. Fico feliz por ter amigos tão abençoados/ abençoadores e pelo fato de a Palavra de Deus surtir um efeito tão intenso em mim.
Eventos que aconteceram posteriormente, como a última Santa Ceia do ano, a cantata da UMADERV na praça, o churrasco do PREX e os pré-congressos tornaram ainda mais especial o temido mês, que já estava quase acabando. Eu disse quase, porque ainda faltavam duas datas não menos importantes: Natal e ano novo.
Independente do que poderia acontecer, o colo do meu Aba me oferecia segurança irrestrita e confortável familiaridade. Com Brennan Manning aprendi que, quando a impressão que tenho é de que tudo está perdido, devo fechar os olhos, virar para cima as palmas das mãos e orar: “Aba, pertenço a Ti”. Nada mais. Isso é o bastante.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Doce novembro



Novembro trouxe consigo muita expectativa, além de trabalho inesgotável e correria, claro, atributos natos do Projeto Experimental, vulgo PREX. Foram nove meses de dedicação, como em um período gestacional. Inúmeros sacrifícios, abstinência familiar, finais de semana bem gastos com pesquisa, produção, edição e afins.
Na verdade, o TCC (trabalho de conclusão de curso) foi pra mim uma válvula de escape, contrariando a sensação de incapacidade que senti na época em que começamos a elaborá-lo. Fevereiro de 2011, início de semestre, necessidade urgente de se pensar em um grupo e um tema para o PREX. A escolha estava “tão certa como o ar que eu respiro” (parafraseando a música): Dionézio Costa, Júlio César, Lidiane Guimarães e Muriele Silva, com o tema Hospital do Câncer de Rio Verde. Para os íntimos: MuriLidi, Julinho e Costa, defendendo o Projeto dos sonhos. Ali começava o que eu posteriormente chamaria de saga, ou praga do PREX.
A empolgação com o novo e desafiador projeto logo foi interrompida pela pior notícia que já recebi na minha vida. Me lembro das palavras da Lidi, ditas a outras pessoas, claro, na vã tentativa de não me deixar perceber o quanto o momento era cruel: “sei que tragédia não escolhe hora pra acontecer, mas esse é o pior momento pra algo assim vir sobre a vida da Murizinha”. Inicialmente, concordei com ela. No decorrer do ano, entendi que se não tivesse uma causa tão importante pela qual lutar, não teria continuado viva, pelo menos não literalmente. O trabalho foi uma forma de canalizar a dor, de me concentrar em outra coisa a não ser a perda, a injustiça, a ausência do meu pai. Eu precisava ir até o fim, simplesmente porque ele havia dito para os amigos que tinha uma filha jornalista e eu não poderia permitir que pensassem se tratar de uma mentira. Eu não queria decepcioná-lo, nem me decepcionar, nem decepcionar meu grupo, muito menos o hospital. Eu suportei o mês de março como quem dava o último suspiro de vida ao final de cada dia. Nos meses que se seguiram, me doei o tanto quanto pude ao projeto, percebendo nele uma maneira, por mais discreta que fosse, de amenizar a sensação de vazio e da minha inutilidade na Terra.
Meus amigos tiveram de se acostumar com a minha constante ausência, ausência essa provocada pelo projeto e pela perda que fez de mim uma companhia nada agradável. A maioria deles soube lidar tão bem com isso que nem acredito. Sem cobranças, sem perguntas de por que ou pra quê. Apenas abraços, sorrisos e lágrimas, acrescidos de “não é assim que funciona, dona Muriele”, “vou te dar uma semana pra sair dessa vida”, “se não deixar de ser mal criada, vai ficar sem sobremesa”... Não sei o que seria de mim sem os choques de realidade que recebi dos meus anjos. Nada do tipo “sua mãe precisa de você”, ou “você tem que ser forte”... Ouvi coisas que realmente marcaram minha vida e influenciaram minha volta a ela, coisas que só quem me conhece bem poderia dizer, sem estereótipo, sem julgamentos.
Pesquisa bibliográfica, correções, incompatibilidade de idéias, produção de pautas, gravação de entrevistas, decupagem, roteiro, mais pesquisa, mais correções, um pouco mais de pesquisa, e mais um pouco, e mais um pouco. Com Nichols eu aprendi não só a respeito do poder de persuasão do documentário... Entendi que ele poderia mudar histórias, inclusive a minha. Bernard foi útil quanto à produção do filme, mas também reafirmou a tese de que quando acreditamos em algo, temos que lutar para provar sua viabilidade. Barbosa foi categórica quanto aos direitos dos portadores de câncer e às dificuldades enfrentadas por eles, além de me fazer repensar a respeito da brevidade da vida, tema tão pertinente ao momento pelo qual eu passava.
Por inúmeras vezes a reunião de PREX foi descaracterizada, transformando-se em um tempo de consolo, em que a Lidi paciente e atenciosamente me ouvia chorar e repetir as mesmas histórias por horas a fio. É incontestável que ambas aprenderam e cresceram muito nesse período. É incontestável também o quanto ela me ajudou a manter a sanidade, sendo verdadeiramente meu ponto de equilíbrio. Ela fazia com que as coisas parecessem mais fáceis. Hoje vejo que não era nada tão simples quanto ela pintava, e ela sabia disso. Mas sabia também que se demonstrasse fraqueza e insegurança diante da irmã fragilizada, certamente a levaria à desistência. “Murizinha, dá pra melhorar pra eu poder ter minhas crises também”? Nunca vou me esquecer das renúncias que fez, do quanto foi altruísta e abnegada, tudo por mim, tudo pra me ver chegando inteira ao final do ano e da vida. Quantos dias 16 passamos juntas, digitando, chorando, comendo e cantando “we are the champions, my friends”! A Lidi não me deixou desistir e fazia questão de lembrar quem eu era o tempo todo. Ela me permite errar, chorar, cair, sentir raiva, frio, calor, tédio, preguiça, amor, ódio (momentâneo)... Coisas simples, mas que me tornam humana, como de fato sou.
Sempre que passávamos pelo auditório, vazio e escuro, repetíamos a mesma frase: “um dia isso aqui estará lotado, esperando por nós”. Parece até que ele entendia o recado e ia se projetando para a noite memorável que testemunharia. Na noite anterior à apresentação, a última e fatídica crise, que me levou a crer que, se tivesse que esperar mais que um dia, não conseguiria suportar. Eu havia chegado ao meu limite. Limite de paciência, de estresse, de cansaço, de dor física e emocional, de sono, de aulas sem banho, sem almoço, sem vontade. Eu pensei em desistir, confesso. Mais de uma vez. Principalmente em noites de crise, as quais são aparentemente instransponíveis. Mas não são. São apenas noites escuras e, quanto mais escuras se tornam, mais denunciam a chegada do amanhecer. 
De repente, passaram-se os noves meses e foi marcado o dia do parto: 08 de novembro. Após uma gestação de risco, com inúmeras dificuldades e superação das mesmas, nasceu o Projeto dos sonhos, com o peso de 23 personagens e o tamanho de 25 minutos. No dia da cirurgia, logo pela manhã, começou o trabalho de parto. Olhar para o auditório vazio e imaginá-lo repleto de rostos conhecidos parecia não condizer com a realidade. Mas o fato é que, após muita correria com os últimos toques, a exemplo das caixinhas de pipoca que ficaram tão famosas, chegamos nós quatro (eu, Lidi, Júlio e Costa) juntos, como quem chega a uma noite de premiação do Oscar. Não deu tempo de observar o auditório vazio e compará-lo com aquele que havíamos visto pela manhã, porque sem que pudéssemos perceber, ele logo estava cheio, literalmente cheio, sem poder acomodar todas as pessoas que ali estavam para assistir o nascimento do nosso filho. Quanta honra! Quanta alegria! Vontade de chorar, de abraçar todo mundo, de terminar o que havíamos começado, de começar tudo de novo!
Quando dei por mim, estava no palco, e diante dos meus olhos uma pequena multidão que torceu, orou, rezou e colaborou com o nosso sucesso. “Senhoras e senhores, boa noite. Sejam bem-vindos à estréia do filme Projeto dos sonhos: Hospital do Câncer de Rio Verde”. Mais surpreendente do que ver tantos olhos atentos ao que eu dizia, foi ver esses mesmos olhos se apertando e dando lugar às lágrimas sinceras, de admiração, de reconhecimento, de gratidão. Ao final do filme, eu e meu grupo, de mãos dadas, fomos aplaudidos de pé, não porque merecíamos tal ato, mas porque estava escrito que deveria ser daquela forma. Como em um passe de mágica, aquele momento único passou, rápida e definitivamente. De repente não vi mais ninguém, a não ser a banca examinadora, que nos julgou de acordo com nossos cuidados com a gravidez. O resultado foi muito bom... Todos aprovados, com a maior nota para a Lidi, justa e merecidamente.
A sensação do pós-banca é indescritível... Um misto de sentimentos que não cabem dentro do peito, que precisam ser verbalizados. “We are the champions, my friends”! Sim, nós somos campeões, por motivos que perpassam um simples trabalho de conclusão de curso. Depois da argüição dos professores, o verdadeiro sentimento de liberdade, de missão cumprida. Para minha surpresa, alguns amigos me aguardavam lá fora, e juntos fomos aproveitar o final daquela noite que, mesmo merecendo ser eternizada, havia sido tão curta.
Mal deu tempo de comemorar e eu já tive que voltar pra casa, arrumar as malas e partir. Considerando o destino, o sacrifício foi, no mínimo, válido. Intitularia a viagem como “os dez manés, sentido litoral”... Eu, mâmis, Lô, Naná, João Neto, tia Regina, Amigo, Rogério, Silvânia e Gaby fomos para o Guarujá – SP, onde pude, pelo menos, descansar a mente e me divertir muito. Em homenagem à Naná e à Lô, preciso lembrar detalhes que fizeram toda a diferença. Lá vai, meninas:

“Óh, que calor. Queria tanto um sorvetinho”!
“Respeita a puliça”!
“Olhando para sempre”.
“Hú, ‘sombração’! Hú, cabeção”!
“Passa o anel de verdade”.
“Janete, essa foto te favoreceu, hein”.
“Tá de deboche”?
“Bom dia”. “CALABOCA”!
“E você, moça”? “NADA”.                        
“Lorrane, me empresta dois reais”? “NÃO”. “Então tira uma foto”? “NÃO”.
“Naná, ignore minha mãe e continue a nadar”.
“Tira uma foto! Eu acho que vi um gatinho”.
“AAAAAAATCHIM”! (Velhinhas ricas).
“Humildade”! TRELA.
“Vou beijar as três pra ninguém chorar”. “Fala pra ele que a gente não tá interessada e que ele teria que pedalar muito”.
“Era pra ter virado ali, Amigo”! “Mas o GPS falou que era pra seguir reto”.
“Você chegou ao seu destino”! CRI CRI CRI.
“Anêim, mãe. Vou te fazer massagem até você deixar de ser revoltada”.
“Isso é que é bonita”! “Que bosta”!
“Nágilla, me dá um aí. Você fica com dois e eu fico com dois”. “NÃO. Você não quis me emprestar dois reais”.
“Neguinha, a Lorrane falou pra você morrer sem prova”.
“Volta pro mar, oferenda”.
“Bandida, disgranhenta. Óh o quê que ela faz com a gente”! “Quem, Neguinha”? “A muriçoca”!



No dia 14 de novembro, já em casa, fiquei maravilhada com as notícias a respeito do Projeto dos sonhos. Ao que tudo indicava, até então, o filme estava alcançando seus objetivos. No outro dia, ironicamente véspera do dia 16, como no mês anterior, lá estávamos... Eu, a Claudinha, o Lindeza e a Naná, desta vez com a presença não menos importante da minha mãe, da Lô e da Nilla. Ironicamente, ou não. Propositalmente, eu creio. Assistimos “Ironias do amor”, um filme perfeito, daqueles que retratam um romance inocente, bem à minha maneira. De repente era dia 16. De repente eu já estava sem meu pai há oito fatídicos e extensos meses.
Voltei ao trabalho e à minha rotina, desta vez sem PREX, o que me causou certa nostalgia. Como de costume, a Lidi me deu “a boa notícia do dia 16”: ela marcou seu casamento para 11 de maio de 2013, e teria marcado para o dia 16 se houvesse uma data conveniente, só pra tentar me deixar como lembrança algo feliz e marcante no mesmo dia em que minha vida perdeu o sentido. Como boa notícia pouca é bobagem (parafraseando a Claudinha com o seu “egocentrismo pouco é bobagem”), passei o dia com o Otávio, que de maneira impressionante quase faz com o que o dia 16 pareça outro qualquer. Eu disse quase. O jeito que ele me olha parece demonstrar que entende minha dor e que é solidário a ela como ninguém. Detalhes desagradáveis tornaram o dia mais difícil pra mim, porque, infelizmente, há pessoas que não respeitam a dor e o espaço alheios, pessoas para as quais verdadeiramente “egocentrismo pouco é bobagem” (mais uma vez parafraseando a Claudinha). Mas tudo bem... O dia passou.
Uma marca eterna foi deixada em meu coração no dia 19. Executamos a primeira mostra pública no Projeto dos sonhos e, claro, não haveria melhor lugar para fazê-lo a não ser no Hospital do Câncer, que realizava também sua 8ª Campanha Liga da Mama. Na ocasião, o deputado federal Heuler Cruvinel anunciou ao expressivo público o repasse de uma verba no valor de R$ 3 milhões para o HC... Ainda não sou mãe, embora acredite compreender o significado de ser, mas naquele momento era como se um filho meu estivesse recebendo o tão esperado benefício. Não consigo explicar esse sentimento pelo hospital... Enfim, o filme emocionou a muitos, em especial uma professora que, após pedir o uso da palavra, chorou e nos fez chorar também. “Isso é o que eu chamo de trabalho de conclusão de curso, e não aquela papelada que entregam pra ficar arquivada na faculdade”. Justamente, nobre e desconhecida professora. Trata-se da tentativa de promover mudança e ajudar o próximo, que nem precisa ser tão próximo assim... Pode ser de longe, mas não deixa de ser próximo.
Antes que pudesse morrer de tédio sem o meu amigo PREX, lá estava ele de volta. Dia 23 era o prazo limite para a entrega e nós não tínhamos tempo a perder. É claro que, como de costume, as coisas não aconteceriam de maneira fácil pra nós. Com muita dificuldade (o que nos instigou a crescer durante todo o processo de produção do trabalho), conseguimos entregar o material dentro do tempo estabelecido. Assim acabava a nossa saga, ou a praga do PREX. E não foi só o Projeto dos sonhos que nasceu neste mês... A Ana Beatriz também, saudável e faminta. Aliás, esse foi um mês de muita comemoração... No dia 24, a Gaby completou seus quatro aninhos.
Após as duas únicas provas da faculdade, sendo a última no dia 30, eu estava de férias, pelo menos academicamente falando. Aliás, o último dia de aula foi triste, já que era também a despedida dos colegas de jornalismo e publicidade que concluíram seus cursos. Apesar de já ter apresentado o TCC, eu ainda tenho um semestre pela frente.
Acabava então o meu doce novembro, que deveria abrir precedentes para um dezembro tão doce quanto. Acontece que dezembro é meu mês preferido, dado o amor que sinto pelo Natal. Isso me dá medo, porque vai ser o primeiro sem... Bom, sofrer por antecipação é tão eficiente quanto mastigar água e, além do mais, esse é assunto para outro texto. Feliz novembro!


“Flores de maio, sol de verão, a primavera está chegando... É o fim da solidão. O pardal encontrou casa e a andorinha ninho para si... E eu os Teus altares. Nuvens e raios sobre o sertão, avisa lá que está chovendo... É o fim da sequidão. Diz ainda que a gente conseguiu sobreviver à dor e Deus mandou a chuva. Primavera e verão, no outono ou inverno, então, o Senhor é o meu Pastor. Na alegria e na dor, eu confio em Ti, Senhor. Nada vai me separar do Teu amor"! 

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Chuva de bênçãos

Para muitos, sinal de tristeza, incômodo pra quem tem algum compromisso e inimiga dos cabelos, principalmente no que diz respeito às mulheres. Pra mim, sinônimo de bênção e renovo. A chuva anunciou a chegada de bons momentos naquela sexta-feira, dia 14 de outubro.
Pane na rede elétrica, a faculdade alagada e em trevas. Mas no meu coração brilhava forte a luz da esperança... Eu sabia que Deus tinha algo reservado para aquele final de semana. Tinha que ter. Não tinha?
“Quem veio pra ser bênção é bem-vindo e pode chegar”, já dizia a moça que apresenta o Morada Gospel. Concordando plenamente com ela, recebi em casa duas pessoas que representam exatamente isso pra mim: BÊNÇÃO. Não porque não têm problemas, porque elas os têm. Elas choram, sofrem, têm crise existencial e de mau humor. E quem pode culpá-las por isso? Elas são bênçãos na minha vida, não porque me deixam confortável com palavras apaziguadoras. Elas são bênçãos porque decidiram que seriam assim. Talvez porque obedecem à Palavra, a qual diz “sê tu uma bênção”, ou talvez porque sua própria natureza permite que transitem entre a sabedoria e o altruísmo. Paulinha e Naná, minhas bênçãos do dia 16...
Minha história com a Naná perpassa os anos. Deus nos fez primas e o amor nos fez irmãs, melhores amigas, confidentes, cúmplices e agentes de uma missão em comum (ela tem até uma capa de espiã). Orei pela salvação dela durante quatro anos, por isso a considero minha filha, espiritualmente falando. Tive a honra imensurável de ser usada pelo Senhor para que ela se convertesse e a alegria inenarrável de caminhar com ela em direção ao púlpito, na ocasião em que entregou sua vida a Jesus. Jamais me esquecerei de seus primeiros passos, ainda tão desequilibrados e vacilantes. O medo que tinha do poder da oração... “Neguinha, Deus atende nossa oração, certo? Então, se eu cantar essa música da Fernanda Brum que diz ‘dai-me filhos’, eu vou engravidar”? Hoje, ainda me espanto ao olhar pra ela e ver o quanto cresceu. Minha menina já caminha sozinha, com seus propósitos, sonhos, sua fé firme e santidade ao Senhor. Nem preciso dizer o quanto isso me enche de orgulho.
Ela é especialista no que diz respeito à minha vida. Sabe todos os meus segredos e fraquezas. Acompanhou as minhas crises e sempre me abraçou até a dor passar. Nunca me julgou, apesar de apontar minhas falhas quando necessário. Ela me respeita tanto que nem sei. Entende quando não quero falar e ainda acrescenta: “Já sei, Neguinha. Tudo tem um propósito e você só vai me contar o que aconteceu quando o problema estiver resolvido”. Exatamente. Nós duas passamos por momentos tão difíceis, mas a amizade verdadeira não pode ser destruída. Hoje e sempre estamos juntas e nem a morte pode nos separar, porque ambas temos a promessa de vida eterna ao lado do Pai.
E por falar em pai, ela soube me compreender quando perdi o meu. Na verdade, nós sofremos juntas, já que ela também havia perdido um grande amigo. Amigo que cantava pra ela, que ligava e prometia morango com leite condensado. Talvez por isso ela não cobrasse minha exclusiva atenção naquele momento tão amargo. Ela me entendeu e respeitou porque também estava sofrendo, porque sua vida também foi tocada pelo Dr. Xingu. Fomos o consolo uma da outra. Um abraço e mais nada... Era o que precisávamos. E tivemos. Eu a abracei pra tentar amenizar a sensação de perda, e ela fez o mesmo. Naná, minha Naná, minha eterna Naná.
A Paulinha é um caso à parte. Nos conhecemos por um propósito de Deus, eu creio. Nada premeditado, nada de ensaio... Exatamente como o Senhor sonhou pra nós. Um ícone pra mim, pessoa digna de ser imitada, instrumento abençoador da minha vida. Talvez tenha sido quem mais marcou minha história na ocasião em que passei pelos meus piores dias. Amparou a mim e à minha família em oração, foi fortaleza pra minha irmã, se preocupou com a minha mãe, nos ajudou como pôde e fez muito, muito por nós.
Ela acreditou que havia esperança pra mim e me conduziu em direção a ela. Repetidas vezes me disse: “Muri, eu creio que você ainda vai dançar sobre a dor”. Mesmo sem perspectiva à época, acreditei tanto nessas palavras que elas tornaram-se um respaldo pra mim. Eu queria crer, porque sabia que Deus não podia trair a Si mesmo, deixando-me perecer em meio à dor. Com a compreensão de que se eu quisesse viver pra glória de Deus jamais poderia ficar presa à tristeza e entregue ao desespero, literalmente fiz cumprir em minha vida a palavra profética que recebi da Paulinha. Sobre um tecido preto, representando a perda, a morte e a tristeza, dancei e me entreguei totalmente, desta vez não mais às lágrimas, mas à vontade do meu Pai, aos propósitos dEle pra mim, a despeito da dor e da saudade. Serei eternamente grata a Deus por ter marcado tão positivamente minha história através da Paulinha. Jamais vou me esquecer de tudo o que ela fez e continua fazendo por mim.
Pois bem, essas duas pérolas foram enviadas até mim, pelo próprio Deus, e com elas veio a chuva, a bênção, a paz, o prazer de boas companhias, o falar sem medo, o ouvir com amor. Na verdade, vivemos uma grande aventura juntas. Sexta-feira, 11 da noite, sozinhas em casa, sob forte chuva, sem nenhum dote culinário. Após uma pequena confusão com a troca do nome de estabelecimentos comerciais (né, Paulinha?), tudo acabou em pizza. O culto familiar com as duas foi ouro.
No sábado, tive que deixá-las pra ir ao trabalho e à reunião de PREX. Aproveitamos muito os momentos que nos sobraram e a rara companhia da Vanilla. Depois, um crepe francês e uma improvisada reunião de bubiças fez com que aquele dia se aproximasse muito da perfeição. Quando o relógio, alterado pelo horário de verão, anunciou a chegada do dia 16, a sensação típica dessa data rondou meu coração, mas foi expulsa pela presença das minhas duas bênçãos, além da Claudinha e do Lindeza, que comemoravam na ocasião seu aniversário de seis meses de casamento.
O domingo começou com chuva, o que já me deixou muito feliz. O almoço em família deu ênfase ao lindo dia que fazia lá fora. Infelizmente as meninas precisavam voltar pra casa e eu pra realidade do PREX. Mas espera aí! Ainda estava faltando algo. Chuva, ótima companhia e... Isso! Faltava um açaí pra eu ficar completamente realizada. Após a saga pra conseguir um ônibus pras minhas hóspedes, chegou o tão esperado momento. Meses após, naquele dia voltei a tomar açaí. Foi quase que um momento de glória, digno de fogos de artifício e corações estourando no ar. Depois de me despedir da Paulinha e da Naná, já com muita saudade, fui pra reunião de PREX. Algo estava errado... Aliás, estava muito certo, exatamente como Deus gostaria que estivesse. Pela primeira vez em sete meses, eu estava FELIZ no dia 16. Mas espera! Não era esse o dia que marcara para sempre a minha vida, com tristeza e perda? Não era nesse dia que, mesmo inconscientemente e contra a minha vontade, eu chorava inconsolavelmente e evitava contato com as pessoas? Sim, era esse o dia. É por isso que o amor e a fidelidade de Deus me deixam constrangida.           Eu estava sorrindo, e o que é melhor, sorrindo com sinceridade, com aquele sorriso que não se desfaz, que permanece no rosto e faz com que pareçamos bobos. De repente percebi que eu estava dançando sobre a dor. Senti que Deus sorriu pra mim. Senti que Ele estava feliz pelo meu progresso, que estava satisfeito com o trabalho que havia realizado através das meninas na minha vida aquele dia.    
 Na reunião de PREX, recebi um zilhão de abraços do Walter Filho que, mesmo sem saber, também foi usado por Deus pra me abençoar. Pra mim, um abraço vale mais que uma declaração pública de amor... Ainda mais os abraços felísticos do Waltão, que fizeram com que eu provasse do meu próprio veneno. Dessa vez a Lidi não me deu nenhuma boa notícia, porque o próprio Deus se encarregou disso. “Filha, tá vendo como hoje você dançou sobre a dor”?
Se o dia terminasse ali, eu ficaria satisfeita, porque fui feliz o tanto quanto pude. Mas é claro que Papai do céu havia preparado algo além... Acontece que no dia seguinte o meu pequeno Morada Gospel completaria um aninho de vida e o coração da mamãe coruja não se agüentava de tanta felicidade. A programação daquele domingo começou com Fernandinho cantando “Todas as coisas”, exatamente como na primeira apresentação do MG, em 17 de outubro de 2010. Duas coisas sempre me surpreendem: o amor de Deus e o carinho dos meus preciosos ouvintes. Melhor que ter um programa de sucesso em uma emissora de rádio, é ouvir depoimentos como: “Muriele, eu conheci a Deus através de você”; “minha família foi restaurada pela palavra que ouvi certo dia no Morada Gospel”... Assim eu me sinto útil, sinto que ainda não acabou, que ainda tenho algo pra realizar nessa Terra e que preciso combater o bom combate pra só depois encerrar a carreira e guardar a fé.
O mais interessante é que eu não sou a única a ser usada por Deus pra abençoar vidas através do Morada Gospel. Meus preciosos ouvintes são eficientes instrumentos nas mãos do Pai e abençoam tanto minha vida que nem sei dizer. Cada palavra que recebo, cada carta, e-mail, mensagem ou ligação... “Muriele, estou orando por você. Não desista, você vai conseguir”... Tudo isso é adicionado à minha história de vida, a qual está sob o controle de Deus.
E quem disse que o Morada Gospel não pode receber presentes? Adivinhem o que ele ganhou da tia Claudinha!? Um sapatinho lindo, pra comemorar seus primeiros passos, alicerçados na Palavra de Deus. Apesar de a cor do presente ser um tanto duvidosa (sapato rosa para um menino), a mamãe amou e ficou grata pela atenção. Na verdade, o detalhe da cor traz consigo um significado importante... O programa não faz acepção de pessoas, assim como o Pai da eternidade. Não importa a religião, a classe social, o sexo, o grau de instrução... Quem veio pra ser bênção é bem-vindo e pode chegar!
A propósito, faço questão de transcrever a cartinha que o MG ganhou (ou eu ganhei) no dia de seu aniversário. Obrigada, tia Claudinha. Nós te amamos!


Querida Muriele...
Quando olho pra você e te vejo cada dia mais feliz e realizada, me sinto muito feliz... Porque aí consigo ver o quanto o seu programa cresceu e vejo tudo o que você conquistou e conquista a cada dia através dele. Apesar de não conseguir ficar acordada todos os programas para ouvir sua mensagem até o final, quero te dizer que eu me sinto privilegiada.
Primeiro te dizer que seu programa é uma bênção porque a mãe dele é uma bênção!
Segundo porque eu me sinto feliz em poder ter você como amiga, como irmã, de ter a liberdade de te ligar na hora do seu sono da beleza (eu nem ligo se você não me atende), de poder ir na sua casa, de saber que você se sente bem na minha... De saber que você ama a minha família e me respeita como sou, com todos os meus defeitos, e escuta meus lamentos e eu sei que, concordando ou não, você está sempre do meu lado.
Eu sei que você ora por mim... Eu sei, amiga... Eu sinto...
Então eu fico feliz, porque sei também que esse é um privilégio que poucos têm, e Papai do céu me deu... Mas para não ser injusto com as outras pessoas, nasceu então o Morada Gospel, onde você tem a oportunidade de abençoar vidas, de orar por pessoas que você nem conhece, de ajudar vidas que você às vezes nem tem noção de como estão quando ligam o rádio pra te ouvir, pra ouvir a Palavra de Deus. É bom saber que pessoas estão sendo abençoadas através da sua vida... Melhor ainda é saber que Deus te abençoa e renova as suas forças a cada programa, a cada testemunho.
A minha oração hoje é para que Deus continue abençoando os seus passos e os passos do Morada Gospel... Que o seu programa continue sendo iluminado pelo amor de Deus... E eu estou aqui torcendo muito por você e para você.
Parabéns, amiga! Este dia é seu! 17/10/2011.
Amo você!  


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A vida tem a cor que a gente pinta

Preciso que acreditem em mim! Eu não faço de propósito... Não escolho escrever apenas quando se aproxima o dia 16, mas devo dizer que é involuntário. Quando estou feliz e saltitante, tenho muitas formas de expressar essas emoções. Ao contrário disso, quando estou triste, encontro nas palavras uma eficiente ferramenta de canalização da dor. Portanto, permitam-me? Obrigada.
Esse dia 16 é um tanto diferente dos demais. Novas perspectivas pintam um quadro no qual constam também esperança de dias melhores e fé em um futuro desenhado por Deus, embora a saudade insista em entrar em cena, mesmo que camuflada logo aí, atrás daquela mistura de cores. Consegue ver? Talvez não perceba porque não perdeu alguém tão importante quanto a pessoa que perdi. Mas, caso se interesse em saber, a tinta fresca, mesmo que tão competente no tocante ao seu dever de colorir, não pode ofuscar a ausência de uma pessoa amada. Acontece que, na pior das hipóteses, aprendi que a vida tem a cor que a gente pinta. Então, meus caros, se tenho cor-de-rosa, verde, amarelo, azul, lilás e vermelho nas mãos, não posso ser omissa a ponto de inutilizar tão vivas cores e substituí-las pelo cinza e o preto.
Pincel e tintas felizes em mãos, vejam só o que consegui fazer!
Primeiro tenho que falar da fidelidade de Deus, mais uma vez demonstrada a mim na ocasião da minha terceira banca de PREX (Projeto Experimental, que equivale à monografia). Como Papai do céu nunca conseguiu entender o significado da palavra “impossível” (acho que é muito complexo pra Ele imaginar a possibilidade de não conseguir fazer algo), Ele foi lá e fez. Fez o quê? O melhor, o mais lindo, o mais agradável, o mais perfeito, que se traduz em Sua vontade. Eu e meu grupo saímos da faculdade maravilhados. Confesso que não fiquei surpresa... Porque sei em QUEM confio. Sei o Deus que Ele é pra mim e que não decepciona aos que nEle confiam.
Enquanto eu comemorava, mâmis se divertia lá no Mato Grosso, visitando nossos amados familiares. Com ela e a Vânia, o marinheiro de primeira (de muitas que virão) viagem, minha mais linda bênção de olhos verdes, Otávio. Minha mãe estava mesmo precisando dessa viagem, assim como eu estava precisando da minha...
Sim, eu tirei uns dias de folga! Por incrível que pareça, dois anos e sete meses depois (com exceção de alguns dias quando fui ao casamento da Lu), decidi me afastar de todos os meus empregos e demais responsabilidades, mesmo que por pouco tempo, pra fazer a viagem dos meus sonhos.
Adivinhem! GRA-MA-DO foi o destino escolhido. Na verdade (percebam o quanto Deus é lindo), nem fui eu que fiz tal escolha. Foi uma surpresa! “Muriele, organize uma viagem pra Gramado. Sei que é seu sonho e você está mesmo precisando”. CLARO! Era meu sonho e, de fato, eu já não suportava a pressão de tudo e todos. Mais surpresa ainda eu fiquei ao saber que a Claudinha queria ir comigo. Quando penso no sacrifício que ela fez, agradeço a Deus por tê-la como amiga. Não é fácil ir àquela cidade linda, ver tanta gente bonita, sentir frio e tomar chocolate quente! Brincadeiras à parte, sei o quanto isso custou a ela... Deixar o Lindeza sozinho já diz tudo. Minha eterna gratidão à minha pequena Minnie.
Nem precisava dizer, mas eu faço questão! GRAMADO É A COISA MAIS LINDA DO MUNDO! É meu sonho de consumo... Inclusive é um lugar propício à minha felicidade, já que tem uma igreja, um cinema, um jornal, Papai Noel o ano inteiro, frio predominante, chocolate quente e gaúchos que dispensam comentários.
Vivi dias incríveis lá. Dias esses que jamais serão esquecidos. Eu agradeci a Deus por cada momento que Ele me proporcionou ali, tão perto dos meus mais lindos sonhos, em nítido contraste com os dias maus que passara aqui. Era o fôlego do qual eu precisava, o estímulo para mais algumas milhas de caminhada. Eu voltei renovada e feliz, crendo que essa história de Rio Grande do Sul não podia acabar assim. Confesso que, por alguns motivos específicos, um pedaço do meu coração ficou lá. Nada mais justo que voltar para buscá-lo, ou deixar o restante com a parte que não quis vir.
Nessa viagem aprendi lições que vou levar pra vida toda... Através de um livro que a Claudinha comprou só pra me emprestar, verdades bíblicas foram reativadas na minha memória. Lembrei-me que o caminho de volta pra casa passa pelo deserto; não o contorna nem nega sua existência. Deus chega trazendo consolo aos exilados, exatamente onde a vida deles está mais árida e difícil, e o sentimento de perda, mais profundo. O exílio desértico da dor e da perda traz consigo uma sensação de deslocamento, culpa, falta de lar, desespero quanto ao futuro e incerteza sobre como continuar vivendo. É comum procurar nos afastar dessa dor torturante ou tomar o caminho mais fácil. Mas a dor não diminui por nossa negação ou fuga. O deserto deve ser, e será, cruzado. Lembrei-me que devo confiar em Deus e ter a certeza de que Ele está comigo no deserto. Lembrei-me que devo esperar.
Curiosamente, porém, eu avanço enquanto espero. Porque esperar no Senhor não significa recostar-se passivamente, mas tem a ver com uma atitude de ávida esperança concentrada no próprio Senhor. Esperar nEle significa abraçar de novo a vida, tendo sido capacitada por Ele mesmo pra isso. Quando confio no Seu amor, ocorre uma troca milagrosa... A Sua força entra no lugar da minha fraqueza. Quer voando, correndo ou caminhando, pela graça de Deus, avanço a qualquer passo e em qualquer caminho que o Senhor me dirigir com sabedoria. Afinal de contas, não posso me entristecer como aqueles que não têm esperança. No entanto, sei que tenho o direito de chorar, porque o próprio Jesus o fez.
Lembrei-me que, quando somos afligidos pela tristeza e perda, dependemos de Deus para a libertação e o redescobrimento de direção para prosseguirmos com esperança e propósito. Essas verdades marcam, de forma redentora, a vida de quem sobreviveu para testemunhar e também a vida de quem cujos ouvidos permaneceram abertos na tentativa de aprender com experiências alheias. Lembrei-me também que Deus estende Sua mão para proteger especialmente os que não podem se defender, ou seja, os símplices (sim, PJ, Renato, Lindeza e Claudinha, eu descobri o significado de “símplices”; e não é o plural de “simples”, viu) que foram derribados pelos duros golpes da vida. Aqueles cuja fé de criança os ensinou a serem humildes reconhecem que são fracos e indefesos e se voltam confiantemente a Deus. Posso dizer que isso aconteceu comigo. Ao confiar no que Papai do céu estava fazendo, sem tentar persuadi-Lo (mesmo sabendo que não teria sucesso) a agir de acordo com o que eu esperava, me derramei em Sua presença. E, querem saber? Ninguém sai da presença de Deus vazio, exceto os que já estão cheios de si.
Na volta pra casa, trouxe na bagagem um quadro lindo com a imagem colorida de Gramado. As cores eu levei na mala, porque eu sou a única responsável pelo que faço da minha vida e pelo tom que dou a ela.
E por falar em quadro, estou terminando um lindo. Nesse estou caprichando especialmente, já que trabalho nele há um ano... Chama-se Morada Gospel. Mas calma! O fato de estar terminando-o não representa seu fim. Nele eu vou dar retoques uma vez por semana (aos domingos, pra ser mais específica), até que a obra seja concluída e devolvida a Deus, que me deu. Mas esse é assunto para um novo post. Quem vai dar presente nesse aniversário de um aninho do MG? Quem? Quem? A mamãe dele (eu, no caso) está de braços abertos pra receber as congratulações. Marquem na agenda! É dia 17 de outubro (um dia depois do dia 16)!