quarta-feira, 4 de abril de 2012

Nova estação




Eu sentia que algo bom estava pra acontecer, que uma nova estação acenava pra mim, toda sorridente, pedindo licença para se instalar. Tinha que ser assim... Ou eu não suportaria os ventos impetuosos e o frio causticante do rigoroso inverno que perdurava até então. O mês de fevereiro trouxe consigo a promessa de boas novidades... Afinal, o Congresso estava se aproximando. Sim, aquele Congresso... Aquele mesmo do ano passado...
A minha oração era exatamente essa: “faça-me viver um novo tempo, Senhor”. Porém, mesmo não tendo nada além de um sonho e uma inesgotável fé, não imaginei que Papai do céu fosse levar minha oração ao pé da letra tanto quanto o fez. Ainda em janeiro, enfrentei a pior crise de fé da minha vida. Não vem ao caso explicar, mas eu me vi em meio a situações para as quais, humanamente, não havia solução. Lembro-me bem do dia 24, quando, estando ainda de joelhos, recebi uma ligação como sinal de que o melhor estava por vir. Era a Lidi... “Princesa, a deusa da minha alegria”... Após cantarolar a música que ela mesma definiu como sendo minha, disse empolgadamente: “tenho uma ótima notícia pra você, irmã linda”! Foi realmente uma notícia maravilhosa, melhor do que pensei em um primeiro momento.
No mesmo dia, pouco tempo depois, outra ligação... “Minha filha, você está bem?” Era o Pastor Silvano, um amigo que tenho em Acreúna. Não, eu não estava bem. Aliás, nunca estive tão mal desde março do ano passado. Disfarcei o tanto quanto pude e ele continuou... “Deus me mandou fazer uma campanha de 21 dias de jejum e oração por você. Vamos fazer isso juntos?” Como é bom ter amigos que entendem nossas lutas no âmbito espiritual, que não tiram conclusões a nosso respeito sob influência do estereótipo. “Claro, Pastor, claro”. No outro dia, começou a batalha espiritual e, por mais que meu coração tenha se enchido de fé, não imaginei que Deus fosse empreender tamanha mudança em minha vida. Gosto de pensar que Ele olhava pra mim e dizia: “você não queria um novo tempo, filhinha? Então se joga”!
No dia 04 de fevereiro, eu, Lidizinha e Fabrício lindo fomos até Goiânia, na casa da tia Márcia. Nem se eu quisesse, conseguiria me esquecer daquele final de semana. Voltei outra pessoa, determinada, tão cheia de coragem que mal podia me reconhecer. “Muri, se você não tentar ser feliz, nunca vai saber se daria certo ou não”. Eu acreditei nisso... Tanto que, 20 dias depois, decidi arriscar... Um maravilhoso risco, diga-se de passagem.
Enquanto isso, o conflito na minha casa se intensificava (não de pessoas, mas de idéias). Minha mãe e minha irmã queriam voltar para Acreúna e isso me preocupava muito... Como lidar com um turbilhão de emoções e responsabilidades se a ele fosse acrescentada a ausência da minha família? Sob influência do desejo de fazer as duas felizes, eu não percebia que estava sendo egoísta, atando-as a mim sem que elas desejassem permanecer ao meu lado. Não por falta de amor, gratidão ou qualquer coisa do gênero, mas porque, mesmo me amando, elas simplesmente não se adaptaram à nova vida, à nova cidade e à nova condição (viúva e órfã, respectivamente). Portanto, decidi deixá-las livres.
A campanha de oração com o Pastor Silvano encerrou-se no dia 15, em uma quarta-feira, e, surpreendentemente, no outro dia (16, diga-se de passagem), tudo à minha volta começou a sofrer um processo de transformação. Fiz um compromisso com Deus ainda na quarta, dia 15, e entreguei minha mãe e minha irmã em Suas mãos, deixando de olhar para minha vontade de tê-las por perto e confiando que, à medida que a vontade de Deus fosse feita, elas seriam felizes o tanto quanto pudessem. Eu estava preparada para a idéia de que isso poderia acontecer fora do alcance dos meus olhos. Na quinta-feira, durante o culto, reafirmei meu propósito de entrega e, no outro dia, veio a resposta. Minha irmã estava em Acreúna e, ao voltar pra casa, disse decididamente: “não quero mais me mudar pra Acreúna. Quero ficar aqui, estudar e ser feliz”. Mal podia acreditar no que estava ouvindo. É claro que minha mãe, influenciada pela decisão da Lorrane, escolheu ficar também.
“Quanto vale algo bom sentir, quando só o mal parece vir?” Essa frase nunca fez tanto sentido pra mim quanto no dia 16 de fevereiro, que, definitivamente, marcou de forma positiva minha vida. “Tenho algo engasgado na minha garganta... Talvez seja cedo dizer. Quanto tempo esperando... Mas se há tempo para todas as coisas, já é tempo”. Tá... Essa é outra história. É claro que terei o prazer de contá-la, mas não agora. O que posso dizer é que assisti, como se fosse expectadora de mim mesma, a luta inútil que meu coração travou para não deixar-me apaixonar por uma pessoa que não obedecia às minhas regras idiotas. Aplaudi de pé quando a pseudo razão perdeu a batalha, e a alternativa que me restou foi entregar-me, aceitar que estava apaixonada.
O Congresso da UMADERV aconteceu entre 18 e 21 de fevereiro. O que vivi e aprendi nesses dias vai ficar arquivado da caixa das lembranças por muito tempo, senão por toda a vida. Aliás, fevereiro de 2012 será um mês memorável pra mim. No dia 25 eu disse “sim” pra mim mesma e pra uma pessoa que tem me surpreendido dia após dia. “Sim, Muriele, ele é o que você quer. Então se joga”. As regras? Elas são circunstanciais... Mudam na medida em que o tempo passa, de acordo com o nosso nível de amadurecimento. Acho que Deus sorriu pra mim quando eu decidi quebrar as minhas normas... Obedecendo aos princípios Dele, claro. Nem preciso dizer o quanto os meus dias têm sido felizes desde então... O Alysson é, definitivamente, a combinação do que sou com o que falta em mim. Eu havia mencionado anteriormente que o nome dele é Alysson? Não? Poisé... O nome dele é Alysson. Prazer.
Como novidade pouca é bobagem, logo em seguida, no dia 27, comecei um trabalho novo, em uma área na qual sempre quis atuar. Fui contratada para compor a equipe de assessoria de imprensa da Usina Salto do Rio Verdinho, do Grupo Votorantim. Creio eu se tratar do maior desafio profissional que já enfrentei até agora e espero que seja uma mola propulsora pra minha carreira jornalística.
É... Acho que Papai do céu entendeu bem o recado... “Uma nova estação depois do congresso, meu Deus, por favor, por favor”! E por que, necessariamente, depois do congresso? Porque foi, exatamente, depois do congresso do ano passado, que começou um novo tempo na minha história. O pior de todos, diga-se de passagem. Mas agora eu não quero falar do que passou... Porque meu futuro está depositado em Alguém cujo amor por mim supera o tamanho da minha dor e das más lembranças. 


“Flores de maio (fevereiro?), sol de verão... A primavera está chegando, é o fim da solidão. O pardal encontrou casa e a andorinha ninho para si... E eu os Teus altares. Nuvens e raios sobre o sertão... Avisa lá que está chovendo, é o fim da sequidão. Diz ainda que a gente conseguiu sobreviver à dor e Deus mandou a chuva. Primavera e verão, no outono ou inverno, então, o Senhor é o meu Pastor. Na alegria e na dor, eu confio em Ti, Senhor... Nada vai me separar do Teu amor”.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Minha princesa (by Lidiane Guimarães)


A Lidizinhaminhavida havia prometido escrever um texto sobre mim há muito tempo. Recusando-se a entregá-lo enquanto eu não estivesse mais “felizinha”, essa minha irmã mais velha o fez chegar em minhas mãos como um presente, no dia do meu aniversário. Aliás, foi por causa dele que dormi com o rosto banhado de lágrimas no dia 19... Não de tristeza, claro que não. Ela sabe como tocar meu coração e promover a cura pra minha alma! :’)


Quando criança, ela sonhava com os contos de fadas, acreditando piamente que, quando crescesse, conheceria o príncipe encantado, enfrentaria a bruxa malvada e seria feliz para sempre. O tempo passou e a minha princesa percebeu que o mundo não é exatamente cor de rosa. Mas isso não quer dizer que ela não pode ser feliz como as princesas que um dia almejou ser! Aliás, ela tem muito em comum com aquelas princesas dos contos de fadas. 
Vejamos... Uma princesa em sono profundo, que espera um príncipe encantado para desperta-lá com um beijo provindo de um amor verdadeiro. De fato, a Bela Adormecida poderia ser um clone da minha princesa. Uma diferença gritante da minha majestade é que ela jamais conseguiria transformar o sapo em príncipe. Portadora de sapo fobia, ela rejeita qualquer passeio se sonhar que tem algum anfíbio no caminho. Princesas modernas são assim, cheias de medos e traumas.
De fato, ela também tem algumas afinidades com a Cinderela. Minha majestade já ficou na janela, chorando e orando muito. Também já foi a uma festa vestida como uma rainha. Entretanto, ela ainda não conseguiu dançar com um príncipe. Mas tem um sapatinho de cristal. Na versão masculina, muitos rapazes disseram ser os donos do sapato, mas o pé de nenhum deles se encaixou no objeto até o momento.
Branca como a neve, com os cabelos negros como o ébano e os lábios vermelhos como o sangue. Fisicamente elas não se parecem, mas a beleza da minha princesa certamente também enfeitiçaria o espelho mágico da madrasta.  Ambas tiveram os sete anões apaixonados. Chapeuzinho vermelho é uma garota alegre e prestativa, assim como a minha princesa. Contudo, a minha majestade jamais conseguiria atravessar o bosque com uma cesta cheia de guloseimas. Aposto que faria um piquenique na floresta e iria se deliciar com a comidinha da vovó sozinha. Ela é verdadeiramente uma gulosa.
Minha princesa seguiu os caminhos da Rapunzel. Também foi trancafiada numa torre alta, sem portas ou escadas. A diferença é que a minha nobre desconhecida não tem sua torre feita de tijolos... Sua morada é construída pela fé. Uma construção também forte e sólida, mas que a afasta daqueles que não têm a coragem para pedir que ela jogue as tranças. Por medo ou respeito, talvez. O fato é que sempre que ela ouviu algum pedido, imediatamente jogou as tranças.
Minha majestade não tem sua vida publicada em nenhuma obra. Porém já é bastante conhecida e famosa. Um reconhecimento que é fruto do seu trabalho. Sim, a minha princesa trabalha e trabalha duro. Tem uma facilidade ímpar de conciliar tarefas, consegue ter tempo para a família, amigos, faculdade, trabalho e especialmente para Deus. Ela já percebeu o mundo com todas as suas cores, e entendeu que até o dia cinza é importante para crescer.
Minha princesa sabe que o príncipe encantado existe, mas ainda não achou a forma, tamanho e número exato. Ela quer ser feliz por toda a eternidade e nos ensina a levantar depois do tombo, nos mostra que não dá para sorrir o tempo todo, no entanto o choro não é nada comparado às felicidades da vida. Ela busca dentro de si todas as expectativas de infância e as traz novamente à superfície... Porque... Os contos de fadas? Existem, sim. E essa princesa se chama Muriele Silva. Feliz do autor que conhecer sua história.

Notícias do meu filho Lukas no céu (by Caio Fábio)

No dia 11 de janeiro, quando meu pai completaria seus 44 anos, recebi o texto abaixo, de uma amiga linda que muito tem me abençoado. Obrigada, Loo! :')






É sempre estranho imaginar que um filho seu já viveu mais que você, o pai. É assim que me sinto acerca do Lukas, meu filhote, e que hoje faria 30 anos de idade se ainda andasse por este planeta; ou seja: neste pobre tempo/ espaço/ 2012.
Sim, porque ele não viveu em nada mais do que eu, tendo partido deste mundo aos 22 anos de idade; e, portanto, há oito anos —; embora, pelo fato de ter atravessado a morte, de imediato já tenha vivido infinitamente mais do que eu viveria em bilhões de anos de existência planetária.
E mais: já amadureceu mais do que eu; sendo meu preceptor em outra dimensão; tendo se tornado infinitamente mais maduro do que eu; e muito mais do que isto: conhecendo tudo o que eu nem suponho como seja conhecer.
Assim, em Cristo, pela morte — que virou porta dimensional apenas —, seu filho se torna seu pai, seu irmão mais velho, seu superior na dimensão espiritual, seu antecessor no espírito, sua testemunha de fé na Assembléia dos Primogênitos arrolados nos céus, em glória!
Eu estou aqui em baixo; vivendo as ambiguidades e ambivalências deste existir; ainda tangido pelas forças banais da vaidade que acontece debaixo do sol. Ele, porém, transcendeu a tudo isto; e, em Cristo, já sabe, já conheceu e já provou o que eu mesmo não tenho nem como alcançar imaginar.
Aqui estou mais velho oito anos, e, no coração, até mais ainda [...]; isto também pelo choque da doce partida dele. Sim, fiquei mais velho do que sou; mais idoso; mais forjado em uma forma de dor que me era desconhecida.
Ele, porém, está eternizado; está celestializado; está plenificado como a plenitude possa ser antes da ressurreição do corpo... Sim, ele não passou ainda pela ressurreição do corpo, embora já esteja ressuscitado, conforme a promessa que diz: “Aquele que crê em mim, ainda que morra [no corpo], viverá; e todo aquele que vive [no tempo/ corpo] e crê em mim, não morrerá eternamente”. E isto foi dito de modo precedido pela declaração: “Eu Sou a Ressurreição e a Vida.”
Portanto, em tal contexto, a ressurreição do corpo — e que de fato acontecerá — passa a ser algo de natureza escatológica/ pedagógica; posto que estar-já-sendo em Cristo na eternidade seja a consumação antecipada de todas as coisas.
O Lukas atemporal e eternizado na celestialidade não é meu filho; é meu irmão; é meu [...] sem que me pertença; assim como eu sou dele, sem que, todavia, lhe pertença. Quando eu o encontrar, nos fundiremos em um amor que não vale tentar descrever a fim de não empobrecer; mas sei que não será nada como os afetos marcados pelo pertencimento animal determinam. Será algo como abraçar em Jesus; algo como se interpenetrar no amor absoluto; sem palavras; sem “lembra?”; sem “e como estão?”; sem temporalidade alguma; embora tudo seja dito sem perguntas e sem questões; sim, tudo seja pra além do aqui... E do aquém!
Ele já está lá; já sabe como é de fato tudo o que eu pobremente apenas cogito... Sim! Meu filho já é! Eu ainda estou sendo e tentando ser! Entre [] tanto — [sim; entre o tempo e a eternidade] —, como é bom saber que meu filho já passou; já entrou; já conhece; já é; já alcançou!
Este é meu maior galardão como pai: ter um filho que me precedeu na ressurreição dos mortos; ainda que a ressurreição do corpo não tenha acontecido na história como fenômeno coletivo —; embora, também na história, a ressurreição de Jesus já seja a Escatologia Realizada de todas as ressurreições.
NELE, em QUEM meu filho não sente mais saudades de nada e nem de ninguém [...] —, eu completo pela fé a minha felicidade de amor verdadeiro, que se alegra com os que se alegram, inclusive com a cogitação da alegria eterna da ressurreição na qual meu Luk-Luk já entrou.

Caio Fábio (10 de janeiro de 2012, Copacabana – RJ).

A trilogia e o Senhor dos meus dias

Eu já sabia que no primeiro ano tudo seria mais difícil. Primeira páscoa, primeiro dia dos pais, primeiro Natal, primeiro ano novo, primeiro aniversário dele, meu primeiro aniversário... Estas duas últimas datas ainda tinham, entre si, o dia 16, no qual a saudade completava 10 meses.
Pois bem, a trilogia 11, 16 e 19 parecia determinada a causar dilaceramento. É inevitável lembrar o que aconteceu em seu último aniversário (como tenho feito com outras datas igualmente importantes). Pela primeira vez na vida, desde que eu me lembre, esqueci de ligar no dia do aniversário dele, no ano passado. Logo eu, que sou tão atenciosa com essas datas, e logo aquele aniversário, que seria o último...
Tentei corrigir o imperdoável erro no dia seguinte e o celular estava fora da área de cobertura. Lembrei-me que ele estava no Mato Grosso, especificamente em um lugar no qual não havia antena para telefonia móvel. Sendo bem sincera, foi um grande alívio. Pelo menos eu não sentiria culpa e ele não saberia, nunca, que eu havia me esquecido. Dói dizer isso, dói maquiar o desconforto... Eu poderia simplesmente contar uma linda história, surreal, porém inocente, daquele aniversário. Mas, dessa forma, não poderia oferecer cura aos que sofrem com lembranças parecidas. Por que me martirizar por conta de um único dia, se todos os demais da minha vida, e Deus sabe do que estou falando, foram dedicados a fazê-lo se sentir bem, a amá-lo incondicionalmente, a respeitá-lo e dar orgulho a ele? Mais uma vez, tive a oportunidade de praticar uma importante lição aprendida há algum tempo: não posso ser tão dura comigo.
Na época em questão (depois do meu aniversário, que é no dia 19 de janeiro) estavam sendo realizados os pré-congressos na minha igreja. Pra quem desconhece completamente o assunto, trata-se de cultos em todas as congregações pertencentes ao templo Sede; cultos esses que têm o intuito de divulgar o nosso mais importante congresso de jovens, que acontece sempre no período do carnaval. Por motivos bastante específicos e, juro, não óbvios, eu havia feito um compromisso de participar de todos os pré-congressos e ensaios do conjunto e, para tanto, ficaria o tempo que fosse necessário sem ir até Acreúna. Vale destacar que, até então, eu não conseguia ficar um fim de semana sequer sem ir pra lá... Nunca consegui cortar o “cordão umbilical” e sentia a necessidade de sempre estar com a minha família.
Certo dia minha mãe ligou me intimando a ir pra Acreúna, sob a alegação de que faríamos uma festa surpresa pro meu pai. Foi difícil tomar a decisão de atender ao pedido dela, já que eu havia feito um compromisso com Deus. Mas meu Papai do céu não é um ser tirano, rígido, inflexível... Ele é maleável e só precisa que nos aproximemos com intimidade, sem medo, sem reservas. Tudo o que nos cerca é espiritual, mas não podemos espiritualizar tudo. Eu tinha a convicção de que Deus entenderia o quanto era importante pra mim ver o meu pai naquele momento. Eu sabia que Ele ficaria muito feliz em me ver em casa, com minha família, naquela específica ocasião.
Eu, Naná e Lorrane compramos os presentes de aniversário do meu pai. Uma calça, um cinto e uma camiseta, os quais ele mal usou... Preparei um discurso impecável para o momento da entrega, mas nada aconteceu como planejei. Lembro-me de vê-lo chegar sujo do trabalho e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, minha irmã entregou os presentes pra ele, que os recebeu com um sorriso imenso, uma mescla de gratidão e orgulho das filhas adultas, ou quase isso. “Lorrane, não era pra entregar agora e também não era pra entregar o meu e o da Naná”! Eu logo esbravejei. Ele riu da disputa. Eu teria que nascer de novo pra ter outro momento tão significativo quanto aquele. A forma compenetrada como ele me olhou fez parecer desnecessária qualquer palavra. Tudo que eu havia ensaiado pra dizer desapareceu, dando lugar a um sorriso embargado e terno. Eu sei exatamente o que aquele olhar queria dizer... Era a nossa forma mais profunda de comunicação, já que ele tinha dificuldade em expressar seus sentimentos. Eu sei que deveria ter dito muita coisa, mas não trocaria aquele momento de singular intimidade pelo texto que mentalizei. “Muito obrigado”, ele disse sorrindo. Eu acenei com a cabeça e sorri de volta. Foi o último sorriso dele que recebi assim de forma tão particular, tão direcionada. Foi também a última vez que o vi me olhar tão profundamente.
Naquele dia meus pais iriam a um casamento e eu estava ansiosa pra vê-los chegar, por conta da surpresa. Mas quem se surpreendeu fui eu. Na verdade, a festa era pra mim, e minha mãe usou a desculpa do aniversário do meu pai porque sabia que de outra forma eu não iria pra Acreúna. Fiquei feliz e grata aos meus amigos pelo carinho, mas chateada por ter meus planos frustrados mais uma vez... Eu havia sonhado com aquela festa. Fui buscar meus pais na igreja e levá-los para a festa de casamento. Foi a primeira (e última) vez que dirigi sob o olhar cauteloso do meu pai. Lembro-me de perguntar se ele queria dirigir e ficar muito tensa ao ouvi-lo dizer que não, que queria ver como eu estava ao volante. Ele era motorista de caminhão, tão experiente, tão seguro. Eu não imaginava que o fato de dirigir tão bem não seria capaz de livrá-lo da morte pouco tempo depois. Enfim... Ele não me disse, mas acho que me aprovou como motorista, apenas pelo olhar, mais uma vez.
No dia seguinte, tivemos o nosso último almoço juntos. Foi, sem dúvida, o mais especial de todos. Apenas eu, ele, minha mãe, a Lorrane e a Naná. Ele, pela última vez, manuseou a churrasqueira, algo que gostava tanto de fazer. Acendeu o fogo com álcool e deixou suas digitais sujas de carvão no frasco. Como aquelas digitais me fizeram chorar depois que ele partiu... Eu tocava nelas como se estivesse tocando em suas mãos. Claro que, com o passar do tempo, as marcas desapareceram. As do frasco, não as do meu coração. O fim de semana perfeito chegava ao fim e eu precisava voltar pra casa. Eu tinha 21 anos, meu pai, 43. Tantos planos para o ano que acabara de começar. Planos interrompidos pouco tempo depois.
No dia 12 de fevereiro voltei em Acreúna para, sem saber, me despedir do meu pai. Na impossibilidade de mudar os projetos de Deus sobre a vida dele, tudo o que eu queria era apenas saber que aquele seria o nosso último abraço. Com certeza eu teria aproveitado mais, me agarrado a ele com toda força que havia em mim, me recusado a soltá-lo, a deixá-lo ir... O mais incrível é que estive lá outra vez, porém ele não estava dormindo em casa, por conta de seu trabalho na fazenda. Sempre que íamos até Acreúna, voltávamos de lá no final da tarde, às seis horas, aproximadamente. Nesse dia, por incrível que pareça, saímos às três da tarde, sem nenhum motivo aparente. Minha mãe disse que ele chegou quarenta minutos depois que saímos e por muitas vezes eu meu perguntei por que isso aconteceu, por que eu não esperei ou por que ele não chegou mais cedo. Depois, entendi que se eu estivesse lá, se tivesse o abraçado naquele dia, eu sentiria o que estava prestes a acontecer. Tenho certeza que sentiria. Acho que Deus quis me poupar de sofrer por antecipação ou evitar que eu orasse pra que Ele não o chamasse pra glória, porque era propósito Dele e tinha que ser assim.
Pouco tempo depois, no dia 16 de março, ele me deixou sem ter o cuidado de dizer adeus. Lá estava eu, escolhendo a última roupa que ele usaria na Terra. Isso foi cruel, mas, ao mesmo tempo, gratificante. Peguei a calça nova dele (aquela que eu havia comprado em seu aniversário), uma camisa que ele gostava muito de usar e uma gravata que combinava com a camisa... Gosto de pensar que ele ficaria feliz com a minha escolha.  A camiseta e o cinto do aniversário estão comigo e me fazem lembrar um dos dias mais especiais da minha vida... São lembranças que me fazem sorrir, chorar, acreditar, desacreditar. Fico pensando na roupa linda com a qual ele estará vestido quando o reencontrar, no céu. Sei que vai ser toda branca e que terá beleza ímpar...
Todos os dias 16 têm sido realmente muito difíceis pra mim, porém, não tanto quanto o último dia 11 de janeiro... Eram seis da manhã e eu despertei como um choque. Fui ao trabalho, mas era como se não estivesse lá. Suportei o tanto quanto pude, mas... Quando dei por mim, estava parada na porta da casa da Lidi. Pobre Lidizinha... Quanta coisa tem suportado por amor a mim. Acho que essa foi a minha pior crise e, pela primeira vez, minha sábia conselheira não sabia o que dizer. Mas a forma como ela me olhou, demonstrando aceitação, foi muito mais acolhedora do que qualquer palavra; isso sem falar do abraço e da maneira única que ela tem de fazer com que eu me sinta melhor: “quer contar como foi o último aniversário dele, irmã?” Nada pode ser mais libertador do que falar... A não ser, claro, a aceitação sem julgamento da pessoa que ouve. De repente, surge uma das idéias geniais dessa minha irmã por escolha... “Faça coisas que poderiam te deixar feliz hoje. Você vai se sentir melhor, eu garanto. Pode chorar, contar a mesma história quantas vezes quiser, mas faça algo bom”. Pouco tempo depois, eu estava sorrindo e apertando felisticamente os braços da Lidi... Só Deus sabe o quanto sou grata por essa amizade.
Fui pra casa e encontrei todo mundo no mesmo estado que eu... Eram visíveis os sentimentos de saudade, dor, tristeza, boas lembranças e dura realidade. É claro que a presença do Otávio fez com que tudo parecesse menos doloroso. Até certo ponto... Estávamos nós dois, como de costume, ouvindo música e cantando (eu me esforçando pra isso e ele só emitindo sons nada convencionais... É a única forma que ele tem de se expressar). Ele está na fase de incríveis descobertas, e uma delas é cantar “parabéns”. De repente, começou a bater palmas e sorrir pra mim, como se estivesse pedindo reconhecimento pelo grande feito. E eu o fiz, até que me lembrei que dia era aquele e o que significava o fato de o meu príncipe, pela primeira vez (pelo menos que eu tenha visto), cantar “parabéns pra você”. Continuei olhando pra ele, até que consegui recolocar os pensamentos no lugar e me dei conta de que era apenas uma coincidência. Ainda bem que ele ainda não sabia falar, pra não me obrigar a ouvir “muitas felicidades, muitos anos de vida”... Além de passar o dia com o Otávio, comi muito palmito, ouvi Thalles Roberto e chorei o tanto quanto pude (seguindo o conselho da Lidi, de fazer coisas das quais eu gosto). E esse foi o pior dia dos últimos dez meses.
Acho que sofri tanto nesse dia 11, que, pela primeira vez desde o acidente, o dia 16 foi só mais um, sem maiores danos e, por incrível que pareça, sem lágrimas. Logo chegou o meu aniversário, dia 19, e aí a tristeza pensou em se instalar... Mas eu me lembrei do que havia aprendido na virada do ano... “Aqui não, coração, você está guardado”.  É claro que o dia amanheceu totalmente diferente se comparado aos anos anteriores... Nada daquela euforia de sempre. O carinho dos meus amigos fez o dia parecer melhor, com certeza; mas, como aqui dentro de mim era impossível existir festa, isso se exteriorizou. Lembrei-me ainda de outro detalhe... No dia da minha última crise (11 de janeiro), a Lidi me aconselhou a pedir um presente pra Deus, mas eu não sabia o que pedir. Ela disse que não precisava saber... Era só pedir pra que Ele me surpreendesse com algo bom. Fiz isso, sem nem imaginar o que poderia receber. Pedi também algo bem específico e, infelizmente, recebi uma péssima notícia como resposta. Mas tudo bem... Eu não me relaciono com Deus pelo que Ele pode me oferecer e sei que o fato de Ele não me conceder o que desejo não significa que não seja bom ou que não me ame. Por outro lado, posso dizer que uma das minhas metas pra 2012 foi cumprida muito rapidamente... Ganhei uma Dudalina do casal Lindeza sem fim!
Sei que uma dor não respeita os limites do tempo, mas sinto que preciso me desprender das datas que mais me causam danos. Sei que Papai do céu é o Senhor dos meus dias, inclusive destes três... Preciso me convencer de que são dias comuns... Eu vou tentar. Eu disse “tentar”.


De todos os pensamentos que tive sobre o meu pai (e foram milhões), o que nunca me ocorreu é que eu estava exagerando. Eu nunca soube se estava sofrendo o quanto deveria. Só sei que estava sofrendo tanto quanto estava sofrendo, simplesmente. Nem disfarçando, nem fingindo.       


domingo, 22 de janeiro de 2012

Aqui não, coração!



A última data possível a me atingir em 2011 era a virada do ano. A fatídica última semana de dezembro tornou as coisas mais difíceis, mas aprendi que os dias ruins fazem os bons ficarem ainda melhores. Sem contar que, a essa altura do campeonato, otimismo pra mim era sanidade. Ou eu acreditava que dias melhores viriam e esperava pacientemente por eles, ou desistia de tudo e me entregava ao desespero. É claro que escolhi a primeira opção.

Entendi que eu precisava descobrir o que queria e depois deveria aprender a pedir. Concentrei-me nisso e descobri que queria a melhor virada do ano da minha vida, contrariando as estatísticas. Então decidi que não faria nada pelas metades, porque não queria ser meio feliz. Daí começou a saga para superar a última noite de 31 de dezembro, que foi a pior da minha história, com toda certeza. Engraçado... Parece cômico e até místico, mas é como se eu estivesse sentindo que o ano de 2011 iria dilacerar tudo em mim.

Minha família foi pra Acreúna e, após pensar muito a respeito, decidi que ficar em Rio Verde, na minha igreja, seria a melhor alternativa. Último dia do ano, sábado... Como de costume, saí do trabalho às 08 da manhã e voltei a dormir (ou tentei fazê-lo), porque um vizinho logo me despertou. Acordei ao som de “Jerusalém, eu andarei por ruas de ouro, eu caminharei junto aos anjos de Deus”. Tudo bem que a música é linda e bastante sugestiva para meu pedido de ano novo, mas quem me conhece sabe o quanto fico mal humorada quando não posso dormir. Lutei contra o som ensurdecedor até quando pude, daí me dei por vencida e fui assistir TV (coisa que raramente faço, a não ser no sábado, quando gosto de ver os calouros do Raul Gil; além, claro, dos meus telejornais favoritos).

“Tudo bem, Deus... Quero ter uma virada do ano feliz e acho que dormir seria um ótimo começo, mas se o Senhor (ou o vizinho) não quer... O que temos pra hoje”? Foi quando me deparei com o Pastor Samuel (Assembléia de Deus do Braz), em uma ministração simples e objetiva que me fez entender o motivo por não conseguir tirar meu sono da beleza. Eu precisava ouvir aquilo. Precisava muito.

O Pastor afirmou que daria 12 conselhos para 2012, esclarecendo que não se tratava de um manual da felicidade nem de autoajuda. Eram conselhos, literalmente, que poderiam ser seguidos, ou não. Eu disse SIM já ao primeiro conselho e decidi que este regeria minha vida no ano que estava prestes a se iniciar... “Guarde o seu coração”, o Pastor disse repetidas vezes. “Não aceite que ele seja depósito de tristeza”. Nem preciso dizer o quanto chorei. A Palavra do Senhor nos faz um alerta importante: “Sobre tudo o que deve guardar, guarde o seu coração, porque dele procede a fonte da vida”. Aprendi uma técnica incrível, que mais tarde, naquele mesmo dia, seria testada a ferro e fogo. “Quando algo ruim lhe suceder e a tristeza procurar uma brecha pra se instalar, bata forte no peito e diga: ‘aqui não, coração, você está guardado’”!

Aqui estão os conselhos, a começar do primeiro, sobre o coração: 



1º: Guarde o seu coração.

2º: Afaste de sua boca as palavras perversas, porque há poder na palavra.

3º: Seja rápido para perdoar e reconhecer suas falhas, mas demorado para ficar ofendido.

4º: Aproveite as experiências de 2011. Reflita e não erre nas mesmas coisas em 2012.

5º: Olhe para frente. Pra quê carregar lembranças ruins? O segredo dos que triunfam é sempre recomeçar.

6º: Não seja invejoso. Aprenda a dormir e ter seus sonhos.

7º: Aprecie a vida, porque ela é linda.

8º: Pense em coisas boas.

9º: Valorize seus relacionamentos.

10º: Aceite a vontade de Deus. Nós enxergamos até a curva, e Ele, depois da estrada.

11º: Confie em Deus acima de tudo.

12º: Aceite os desafios de Deus.



Sobre as experiências de 2011, em particular, uma das maiores lições que tive foi quanto à amizade. Aprendi, da forma mais dolorosa e traumática possível, que amor e perdão são incondicionais, mas que a continuidade do relacionamento, definitivamente, não é. Pelo contrário... Existem muitas condições, muitos limites a serem respeitados. Eu só desejo ter sempre a quem amar e, que quando estiver bem cansada, exista amor para recomeçar. Nada além disso. Nada de cobrança, nada de acusação.

Pois bem. Depois de ouvir Papai do céu falar comigo através do Pastor Samuel, o Ministério Voz da Verdade colaborou para a construção de um dia inesquecível. “Eis que farei uma coisa nova... Caminho no deserto”. Esses trechos do versículo citado se eternizaram no meu coração. Eu precisava crer nisso. Havia esperança e promessa de um novo tempo, claro que havia. Eu profetizei sobre minha vida, dizendo que 2012 seria um ano de novidades, não aquelas previstas, como minha formatura, mas surpresas de fato. Eu creio!

Lá estava eu, almoçando batata e coca-cola (convenhamos que não é legal cozinhar pra uma só pessoa, ainda mais se considerarmos o péssimo gosto da minha comida). Como de costume, aproveitei o momento de solidão pra ouvir música e limpar minha casa, enquanto fazia uma espécie de faxina no coração, simultaneamente.

Fui fazer as unhas e, na volta pra casa, tive a oportunidade de colocar em prática o primeiro conselho que recebi pela manhã (sobre guardar o coração). Deparei-me com um rapaz bêbado, todo sujo, que falava pra si mesmo algo que de início não consegui entender. Eu e minhas histórias com bêbados, meu Deus. Ao me aproximar, compreendi as palavras que saíam desordenadas: “Eu prometo que não vou acreditar que meu pai fez isso comigo”. Pensei se tratar de uma briga familiar, mas não. “Logo hoje, logo no dia do feriado, que é um dia feliz”. Comecei a me preocupar. “Por que ele tinha que fazer isso? Logo de moto? Por que não foi de caminhão, pra bater e acabar com tudo de uma vez. De moto não, cara, de moto não”. Eu fiquei sem ar.

Por que meu pai fez isso comigo? De moto não, cara, de moto não. Inconscientemente, comecei a chorar na rua e pensei que a chance de ter a melhor virada do ano da minha vida acabava ali, mas Deus tem seus caminhos... Ao colocar a chave na porta de casa, eu despertei com um choque. “Aqui não, coração, você está guardado”. Bati no peito repetidas vezes, com a força que encontrei, e disse que não iria permitir que a tristeza se infiltrasse no meu dia, no meu ano, na minha vida. Juro que funcionou. Fui tomada por uma alegria impressionante enquanto falava com Deus por alguns minutos antes de ir pra igreja. Aproveitei para renovar propósitos, fazer outros, ministrar toda sorte de bênçãos sobre minha família, minha casa, tudo o que é nosso. Foi lindo.

O culto teve sua especial participação no projeto de Deus para o último dia do pior ano da minha vida. Nenhuma palavra proferida foi de particular revelação, mas era como se fosse. Uma música, especialmente, embalou a minha retrospectiva de 2011. Na verdade, fiz rapidamente um apanhado de alguns anos anteriores. Ao som de “Palavras”, me lembrei de uma época muito feliz, em Acreúna. Me veio à caixa das lembranças a Lucielle cantando na igreja, a gente saindo depois do culto e depois voltando pra casa, podendo dormir com a certeza de que minha família estava completa. “Ainda que pra Te servir, Jesus, eu tenha que chorar... Te servirei, porque comigo estarás. Sofrer Contigo é bem melhor do que errar”. A última Santa Ceia de 2011 e primeira de 2012 anunciou que o ano novo seria melhor, porque eu tinha o que pode haver de mais precioso nessa vida: comunhão com Deus.

Joelho no chão pra esperar 2012. Os primeiros instantes do ano foram inesquecíveis. Lá estava eu, abraçada a uma garota até então desconhecida, que, naquela noite memorável, em meio às lágrimas, decidiu entregar sua vida a Jesus. Mais tarde descobri que ela era ouvinte assídua do Morada Gospel, o que me fez sentir por ela particular amor e desejo de cuidado. De repente percebi que meu pedido havia sido atendido. Foi a melhor virada do ano da minha vida.

Depois do culto, começou a nossa saga em busca de um lugar pra comer na cidade deserta. Encontramos a Subway aberta... Melhor impossível! Dormi na casa da Claudinha e, o dia seguinte (ou mesmo dia, considerando a hora em que fomos dormir), primeiro do ano, foi marcado por um diálogo saudável e libertador, que me trouxe cura e alívio para a alma. Como é bom amar essa minha amiga! Pra terminar muito bem o que começou de igual modo, o Morada Gospel especial de ano novo marcou minha vida, com toda certeza.

E por falar em marca... “Não entendo o Teu modo de agir quando trazes à minha memória dores, marcas, histórias que estão bem vivas em mim”. Eis aqui algumas delas:



Em 2011:

Perdi meu pai, e com ele a intensidade do meu sorriso, além de seis quilos.

Ganhei o Otávio, o pequeno grande homem que mudou minha perspectiva sobre a vida.

Aprendi que não devo confiar em pessoas que se autoafirmam, se justificam o tempo todo e são invasivas demais.

Mudei de casa e o corte do cabelo (duas vezes).

Beijei o, o, o... Esquece.

Esqueci o aniversário do meu melhor amigo e senti uma terrível culpa por isso.

Experimentei chopp de vinho e gostei (não, eu não sou alcoólatra, nem abandonei a fé).

Terminei meu TCC.

Chorei pela ausência do meu pai, por ver minha irmã se esforçando pra demonstrar força e pela idéia de não conseguir fazer minha mãe feliz.

Fui para o Guarujá com minha família.

Voltei de Gramado apaixonada e com vontade de conhecer a Europa.

Superei o pior ano da minha vida, mas, infelizmente, as lembranças ruins não foram embora com ele.


Em 2012 quero:

Perder o medo de tentar.

Ganhar meus seis quilos de volta, uma Dudalina, um vidrão de palmito, um ar-condicionado e um tablet. Só.

Aprender a reconhecer o “amor sequestrador” há quilômetros de distância e fugir dele, definitivamente.

Mudar para nossa casa nova, aquela que vamos comprar, pela fé.

Beijar o homem da minha vida.

Esquecer o mal que me fizeram em 2011. Aliás, quero esquecer 80% desse ano lamentável.

Experimentar dizer “não” mais vezes.

Terminar meu curso e me tornar uma legítima jornaleira.

Chorar de felicidade no dia da minha formatura.

Ir para a França, Inglaterra e Holanda.

Voltar do exterior cheia de histórias incríveis pra contar.

Superar os traumas que malfeitores semearam em meu coração no ano que passou.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Eu digo NÃO ao amor sequestrador!



A última semana de dezembro foi a pior do ano em termos de dor física. Troquei os dias pelas noites, literalmente, e minha mãe sofreu tanto quanto eu, porque passou noites em claro ao meu lado, tentando aliviar minha dor com suas massagens nada profissionais, porém apaziguadoras. Acontece que sofro de um mal chamado espondilose cervival, um tipo de osteoartrite que causa dores intensas nos ombros, braços e pescoço.
Nunca ninguém me compreendeu tão bem quanto Melanie Thernstrom, no livro “As crônicas da dor – tratamentos, mitos, mistérios, testemunhos e a ciência do sofrimento”. Faço das palavras da autora as minhas: “A dor começou a impor o seu domínio sobre o meu mundo. Não era como uma intrusa violenta que entra à força, quebra tudo e vai embora. Era mais como uma parceira doméstica azeda, íntima e feia; uma presença ameaçadora, suja, perturbadora, mas que se recusava a ir embora. Eu não gostava de acordar e sentir as suas mãos grudentas em mim; não gostava que ficasse pela cozinha, me fazendo derrubar pratos pesados; não gostava que interrompesse meus telefonemas, especialmente quando uma amiga confidenciava uma tristeza que eu me preocupava em escutar. Eu me preocupava, mas não como antes, porque agora parte de mim só se preocupava com a dor. ‘O meu pescoço dói’, era o que me segurava para não dizer, queixosa, quando as minhas amigas discutiam casamentos e abortos. ‘O meu braço dói’”.
Além do incômodo da dor, cobranças, acusações e o tal do “amor sequestrador” fizeram desses últimos dias do ano os piores possíveis. A guerra que acontecia dentro de mim não me deixava dormir. Certa de que o coração é o árbitro das decisões, me calei o máximo que pude pra poder ouvi-lo. E ele me disse o que fazer...
Antes de qualquer coisa, eu sabia que tinha o poder de entrar na vida de alguém e dar a essa pessoa a coragem de ser. Isso significa que poderia estender a mão da reconciliação a alguém que afastei, fazer uma ligação para alguém com quem tive um conflito ou para um familiar com quem não falava há muito tempo. Dessa forma, a cura passa a ser a oportunidade de transmitir a outro ser humano o que recebi do Senhor Jesus; a saber, Sua aceitação incondicional de mim mesma como sou, não como deveria ser.
Ele me ama, seja em estado de graça, seja de desgraça, quer eu viva de acordo com as expectativas elevadas de Seu Evangelho, quer não. Ele vem a mim onde vivo e ama-me como sou. Sempre que transmiti essa mesma realidade à outra pessoa, o resultado foi a cura interior dessa pessoa por meio do toque da minha afirmação. Afirmar uma pessoa é enxergar o bem que há nela, o qual ela mesma não consegue enxergar, e repetir isso apesar das aparências em contrário. Quando uma pessoa é despertada para aquilo que ela é e não para aquilo deixou de ser, o resultado mais frequente é a cura do coração. Como bem disse Brennan Manning, a pergunta não é se podemos curar, e sim, se deixaremos que o poder curador de Jesus flua por intermédio de nós para alcançarmos e tocarmos outras pessoas, de modo que elas possam resistir, lutar e sonhar, correndo para onde nem os corajosos ousam ir.
Eu me autoafirmo como “médica ferida”. Portanto, é meu dever oferecer a cura. Mas até quando o já banalizado “amor cristão” me obriga a agir além das minhas possibilidades? Até que ponto é saudável e biblicamente correto eu me anular em benefício do outro? Aprendi, em meio a esse conflito, que o perdão e o amor são incondicionais, mas a continuidade de um relacionamento, definitivamente, não. O amor que envolve compromisso e amizade eu posso escolher a quem dar, sem culpa e sem medo.
Para reafirmar o que o próprio Deus já havia ministrado ao meu coração, uma linda amiga, usada por Ele, fez chegar até mim um texto que mudou minha vida. Trata-se do posicionamento de Caio Fábio a respeito desse “amor” exigente e acusador.
Segue o texto:



Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas?

Certas frases soam tão bem que parecem até ser verdade. Uma delas é essa frase de “Miss Universo” recitada do livro “O Pequeno Príncipe”.
Nunca vi uma receita de doença ser escrita com tanta beleza e aparência de verdade! De fato, estou escrevendo isto apenas porque hoje recebi alguns e-mails de gente me dizendo basicamente o seguinte: “Puxa, mandei uma carta pra você fazendo perguntas e abrindo o coração, e você nunca me responde. Continuo amando você apesar disso. Mas quero que você saiba que me cativou. Por isso, quero resposta. Me responda, porque eu amo você”.
Todo mundo gosta de ser amado, mas eu já tive mil vidas de amor por mim que quase me mataram. Sim, pode-se ser vitimado e morto por esse tipo de amor “Pequeno Príncipe”.
Só Deus sabe as centenas de viagens que não podia fazer, mas fiz. Tudo por causa do sequestro do “amor”.  Só Deus sabe quanta coisa minha, pessoal, essencial, e de profunda significação, deixei de fazer, apenas porque estava sequestrado por esse tipo de amor que ama convenientemente, transferindo responsabilidades para você. Não, meus amigos! Não estou mais sequestrado pelo amor dos que barganham!
Esse tal amor é barganha infantil e profundamente sequestradora. E tem gente que só ama assim: em troca de alguma coisa — preferencialmente em troca de você, de sua alma. Esse amor, hoje em dia, eu o discirno de bem longe. Não me diz mais nada. Enfartei dele! Esse amor é amor de vampiro!
Tal amor é doença e gera co-dependência. Você fica sequestrado pelo outro, sendo que o outro obriga você a ser dele sem que você possa ser, posto que nunca pediu para ser, muito menos para ser daquele modo e com aquelas cobranças. É como ir andando na rua, ser achado bonito, e, em razão disso, ter que ceder a todas as cantadas. Afinal, você cativou pessoas, e, supostamente, não se pode deixar de aceitar responsabilidades por ter gerado algo tão divino nos outros.
Tudo bobagem! Narcisismo bondoso, porém, ainda, narcisismo! Eu, todavia, já fui vítima disso, e sei que quando você se arrebenta contra a penha da existência, os seus “amantes cativados” acusam você de os haver traído.
Ah, quantos amigos desses eu tive! E onde andam? Cobravam-me presença, atenção, responsabilidades, se diziam irremediavelmente meus discípulos, culpavam-me de os haver convertido e de os haver apresentado um Evangelho tão belo, de tal modo que ou eu os atendia ou tinha que viver com a acusação desses amantes cativados. Fiz tudo para agradar a milhares e milhões de amantes fraternos!
 “A minha vida, ninguém a tira de mim; eu espontaneamente a dou”... — ensinou-me, na prática, o Senhor. Assim, meus amigos, escaldado e livre, esse gato já não tem donos terrenos que pelo “amor de vampiro” o possam impressionar. Antes, eles tiravam de mim. Hoje, meus queridos, eu dou!
Faço só o que posso, e não estou num concurso de amor fraterno. Podem amar a quem desejarem. Fico feliz quando vejo as pessoas amando, não sinto ciúmes de ninguém que seja mais amado do que eu.
No entanto, saibam todos: o Bom Pastor, que conhece todas as ovelhas e que pode cuidar de todas: só há um: JESUS! Ele é o Único Pastor porque somente Ele pode cuidar de todas as ovelhas. E mais: somente Ele pôde dar a própria vida e depois reavê-la. Esse mandato, todavia, eu não recebi de meu Pai. Eu — meu Deus! — mal dou conta de meu dia!
Assim, amigos, me escrevam. Deus sabe como faço tudo isto aqui com todo amor. No entanto, saibam: eu não estou sequestrado pelas afirmações do amor de ninguém por mim. Sou responsável por tudo aquilo que eu puder ser, mas não sirvo às neuroses da falsa bondade. Eu me amo o suficiente para não me deixar mais sequestrar pelo amor barganhante de ninguém.
E mais: minhas prioridades, essas eu decido. Nunca mais pretendo deixar que ameaças de amizades forcem o curso de meu caminho. Afinal, meus amigos, eu também amo, e, também, escolho dar amor a quem quero — pelo menos esse amor que envolve amizade e compromisso. E como sou apenas um, posso apenas aquilo que um único um pode. Quem puder mais do que eu, não me cobre; por favor, me ajude! (Caio Fábio).

Feliz aniversário, Jesus!

Maravilhada com o “espírito natalino” desde sempre, eu nunca havia percebido que a história se repete todos os anos. As pessoas se tornam potencialmente mais humanas, doando mantimentos, brinquedos e tempo para os menos favorecidos. O mercantilismo barato (caro) que acompanha a época em questão cria no inconsciente dos consumidores enlouquecidos a idéia de que presente e Natal não podem andar separadamente. O super aquecimento do mercado faz com que as ruas comerciais da cidade fiquem abarrotadas de formigas encarrilhando caixas coloridas. São as mesmas músicas, mesmas emoções, mesmas palavras.
Os enfeites coloridos e as luzes se espalham por todos os lados. Onde é possível, pendura-se pisca-pisca, lâmpadas e cordões reluzentes, para dar um brilho a mais ao Natal. A caprichada decoração transforma ruas escuras em cenários deslumbrantes. Mas depois de passado o mês de dezembro, as luzes são apagadas e guardadas para o próximo ano, o que significa que toda aquela luminosidade era temporária, incapaz de fixar residência em algum lugar.
O meu Natal de 2011 precisava de mais do que pisca-piscas ocasionais. Eu precisava de uma luz verdadeira e eterna, que me ajudasse a ultrapassar a escuridão que me conduzia à tristeza. Então me lembrei do que Jesus disse de Si mesmo: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, pelo contrário, terá a luz da vida”. Eu tinha (tenho) Jesus, por isso minha luz não ia se apagar depois da festa. Eu reconheci, em meio às comemorações, a voz do anjo que declara que o Seu nome seria Jesus porque “Ele salvará o Seu povo dos seus pecados”. Sabe onde li isso? Na minha Bíblia linda, que ganhei do meu pai justamente no Natal, mas de 2010. Foi o melhor presente que recebi, sem demagogia. Só eu sei o quanto foi significativo ganhar dele um abraço de “feliz Natal” acompanhado pela Palavra de Deus transliterada em um livro. Na ocasião, dei a ele um vinho, que era uma de suas paixões. “Você me ensinando o caminho e eu te desvirtuando com esse presente”! Ele riu.
Lembro-me do último Natal antes da tragédia... Na verdade, não passamos juntos. Essa lembrança já me causou dor, mas aprendi que não posso ser tão dura comigo. Desde que a mãe dele faleceu, em 2003, muitas mudanças aconteceram. Datas assim tão familiares, como Natal e dia das mães, já não tinham o mesmo significado. Ele se escondia, na impossibilidade de expressar a dor que sentia pela ausência de sua diva. Mesmo com a nossa insistência para que ele se juntasse à família na noite de Natal, a tristeza se unia à teimosia e ele permanecia irredutível, sozinho em casa. Foi assim no ano passado. Hoje me pergunto por que eu, minha mãe e minha irmã não abrimos mão da festa da família e ficamos ali com ele. Acho que essa pergunta é irracional demais. Se a história fosse outra, se fosse outra pessoa da minha família que tivesse partido pra eternidade e se eu tivesse perdido a chance de passarmos o último Natal juntas, eu me perguntaria por que fiquei em casa com meu pai e não fui à festa. Então, decidi não me prender ao que poderia ter feito, e sim ao que fiz. Eu sei o que fiz. Deus sabe o que fiz.
O problema maior é o já banalizado pedido de Natal. No ano passado, pedi para que o meu pai estivesse lá conosco no próximo ano, além de pedir para que o momento que estávamos enfrentando, até então o mais doloroso de nossas vidas, fosse superado sem maiores transtornos. Sim, a tempestade em questão passou; porém, meu pai mais uma vez não foi à festa de Natal. A diferença é que não o encontramos ao voltar pra casa.
Caiu por terra o discurso de “enfrentamos dificuldades esse ano, mas o importante é que estamos todos vivos e com saúde”. Foi o Natal mais triste da minha vida e, ao olhar pra minha família reunida ali, os pais com os filhos e até netos, me perguntei várias vezes o porquê de justamente a minha casa ter ficado menor. Outra pergunta irracional, claro. A hora da foto foi uma tortura só... Enquanto que alguns dos meus tios se apertavam em um abraço coletivo com o cônjuge e os filhos, a fim de todos serem alcançados pela lente da câmera, a nossa foto foi quase deprimente... Eu, minha mãe, minha irmã e uma ausência enorme do lado. Ainda bem que a Naná se juntou a nós e tornou o momento menos trágico.
Mas espera um instante! A despeito de como eu me sentia, havia um motivo para estar ali, e olha que não estou me referindo à revelação do amigo secreto nem às guloseimas de Natal. Claro! Era o aniversário do meu amigo Jesus! Como não pensei nisso antes!? Ele deveria estar, no mínimo, triste por eu tê-Lo ignorado de forma tamanha. Acontece que, infelizmente, o ser humano tem a tendência de dar ênfase ao que perdeu, em detrimento do que possui. E eu tinha/ tenho muito: o Rei dos reis me chama pelo nome, conhece minhas preferências, virtudes e defeitos.
Tudo bem que Jesus não nasceu em dezembro. Nem poderia, teologicamente falando. Mas o cerne da questão é que Ele nasceu, e o fez por mim, em particular. É claro que tal demonstração altruísta e abnegada de amor merece comemoração. Cantei “parabéns” bem baixinho pro aniversariante e entreguei o presente que  havia levado comigo. Na hora do “com quem será que Jesus vai casar” não restava dúvida... “Vai depender, vai depender, vai depender se Sua noiva (da qual eu faço parte) vai querer”. Sim, Jesus, eu aceito. Está tudo preparado para o grande dia. Te espero ansiosa, mas não a ponto de perder a esperança; nem tão esperançosa a ponto de perder a ansiedade.





Mãe e irmãs. "Diga ainda que a gente conseguiu sobreviver à dor e Deus mandou a chuva".